31/03/2026

Miséria: A Engrenagem do Capitalismo

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Imagine uma pessoa que busque uma justiça restaurativa e defenda os pobres, marginalizados e oprimidos, tendo o amor e a igualdade como sua principal essência. No mínimo, diriam que se trata de um marxista com poucos seguidores; seria taxado de doutrinador e, com certeza, perseguido por grupos fascistas que se autodenominam cristãos. Todavia, essa figura viveu muito antes de tais pensadores: seu nome era Jesus Cristo.

Este não é um texto religioso; pretende apenas demonstrar que a luta contra a miséria é combatida há mais de dois mil anos e que a pobreza não pode ser o combustível para o crescimento de poucos privilegiados. É triste perceber que aqueles que se opõem ao combate à pobreza atacam os socialmente vulneráveis e culpam o governo justamente quando este segue os preceitos ensinados há dois milênios. Tais pessoas parecem acreditar que o subemprego deve ser hereditário e perpétuo — ou seja, que o filho do empregado deve ser sempre empregado, replicando o destino de seus ancestrais.

Dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) elucidam que uma família nascida entre os 10% mais pobres levaria nove gerações (cerca de 250 anos) para alcançar a renda média do país. Somado a isso, informações da BBC News[1], indicam que 90% dos brasileiros ganham menos de R$ 3,5 mil. Isso implica que as chances de alguém ascender da base da pirâmide são irrisórias. Embora existam exceções, muitas ocorrem na seara política, onde o sujeito se despoja de ética e moral — casos que dispensam exemplos.

Muitos daqueles em melhor situação financeira julgam-se no direito de explorar os vulneráveis. Recentemente, uma "empresária" revoltou-se em vídeo porque trabalhadores preferiram passar a noite de Natal com suas famílias a aceitar um chamado de última hora. Esse fenômeno já era ressaltado por Marx e Engels ao explicitarem que o capitalismo se nutre da miséria e do aviltamento das condições de trabalho[2].

Pedro Demo[3] é ainda mais incisivo ao afirmar que ser pobre é uma condição do "não ser" mais do que do "não ter", pois a fome é inventada e imposta. Para o autor, o pobre é aquele coibido de saber que é pobre. No Brasil, vemos muitos nessa condição que votam contra a própria dignidade, seduzidos pela falsa narrativa de que o trabalho exaustivo os tornará como os grandes empresários — que, na realidade, costumam ser herdeiros, políticos ou latifundiários.

Para Demo, a pobreza não é apenas privação material, mas a privação da capacidade de construir as próprias oportunidades via educação. Na visão de Tomazi[4], a miséria é intrínseca ao sistema capitalista: para que ele exista, é imperioso que existam miseráveis.

Herbert de Souza, o Betinho[5], um dos maiores sociólogos do país, citava Rousseau ao afirmar que "a miséria é a mãe dos grandes crimes; são os soberanos que fazem os miseráveis". A educação seria a forma de minimizar essa chaga, mas ela se torna um problema para o sistema por ser a base da consciência. Daí surge a falácia de que educadores são "doutrinadores". Na verdade, docentes desenvolvem a conscientização; os verdadeiros doutrinadores são os agentes que alienam o povo sob dogmas fantasiosos para impor medo e controle.

A educação é tão libertadora que, no início do século XIX, Hannah More[6] afirmava que ao pobre não deveria ser permitido aprender a escrever, apenas a obedecer. Escrita exige pensamento, e o pensamento leva à crítica do status quo. Por isso, estados como São Paulo e Minas Gerais ainda enfrentam o sucateamento de escolas públicas e a imposição de modelos cívico-militares: o objetivo é garantir que os alunos sejam, acima de tudo, obedientes ao sistema.

 

[1] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57909632

[2] SOUZA, João Valdir Alves de,. Introdução a Sociologia da Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

[3] DEMO, Pedro.  Saber Pensar. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2000 – (Guia da Escola Cidadã; v. 6)

[4] TOMAZI, Nelson Dacio.  Sociologia da Educação. São Paulo: Atual, 1997

[5] RODRIGUES, Carla: Ética e Cidadania. São Paulo, Moderna, 1994 (Herbert de Souza)

[6] CHINOY, Ely. Sociedade: Uma introdução à sociologia São Paulo: Cultrix 2006

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