06/10/2026

Mordedores de Pilar: Quando a Fé é Instrumentalizada pela Política

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

O que uma escultura em madeira, esculpida entre 1509 e 1517, tem a ver com o nosso cotidiano? Essa famosa obra, conhecida como "O Mordedor de Pilar" (Pilaarbijter) e exposta na Grote Kerk de St. Bavo em Haarlem, Países Baixos, retrata uma pessoa extremamente piedosa e religiosa em público. Ela morde o pilar da igreja e, ao mesmo tempo, segura um terço; em contrapartida, essa mesma pessoa falha miseravelmente em suas obrigações morais cotidianas e familiares[1]. A escultura visa ridicularizar a religiosidade exagerada e superficial, ou seja, a hipocrisia de quem prega uma virtude, mas age de forma totalmente divergente na intimidade.

Hodiernamente, observamos esse mesmo fenômeno, por exemplo, em vertentes que se autodenominam evangélicas, mas que agem de forma oposta ao evangelho ensinado por Jesus. Transformaram seus púlpitos religiosos em tribunas partidárias, em um misto de neopentecostalismo e neofascismo. Há pastores e líderes que se afogam na lama da promiscuidade, da corrupção, das mentiras e das falsas acusações, enquanto pregam ao seu público o valor da "família tradicional". Longe dos olhos do público, sua conduta assemelha-se metaforicamente à adoração ao deus Baco da mitologia romana (ou Dionísio, na mitologia grega), marcada pelos excessos e pela devassidão.

São esses mesmos atores que bradam o lema "Deus, Pátria e Família". Contudo, o "Deus" que servem é o deus capitalista, que se alimenta do dinheiro e da miséria de fiéis imersos em uma ignorância fruto de completa alienação coletiva. A "Pátria", na verdade, reduz-se ao desejo de submissão ao colonialismo estadunidense, entregando riquezas minerais e empresas públicas. Já a "Família" é representada por homens sem escrúpulos morais e por esposas subjugadas, de dignidade frágil, compelidas a aceitar humilhações e adultérios por parte de seus maridos.

Voltando à escultura, reza o provérbio popular dos Países Baixos que aquele que era um “Mordedor de Pilar” dentro do templo acabava soltando os demônios dentro de casa ou próximo a seus pares, fazendo imperar a hipocrisia. Note-se que, mesmo após mais de 500 anos, o falso moralismo continua ditando regras, transformando o púlpito em um palanque de horrores que fomenta o ódio e o maniqueísmo. Esse processo cega os fiéis, fazendo-os enxergar inimigos naqueles que outrora eram amigos e até familiares, convertendo a fé em um balcão de negócios para angariar votos por meio da idolatria a líderes com forte desvio de caráter.

Esse é o momento em que a fé perde toda a sua legítima representatividade religiosa e passa a ser ressignificada para o uso de uma política rasteira e nunciopolítica, balizada pela mentira. A religião é usada como escudo ou trampolim, em uma santidade puramente performada que esconde uma agenda leviana.

Dito isso, cabe à educação trabalhar a criticidade do educando e o seu protagonismo cognoscente. A escola deve atuar na promoção do pensamento crítico e da alfabetização midiática, ofertando subsídios para que os discentes possam desconstruir discursos manipuladores. Dessa forma, os estudantes tornam-se capazes de identificar falácias, apelos emocionais excessivos e a instrumentalização da religião e de símbolos patrióticos. Para tanto, faz-se mister o estudo histórico e filosófico das religiões, compreendendo criticamente as suas estruturas e o seu potencial de manipulação ao longo da história.

 

[1]https://www.instagram.com/p/DeF2XrdEQKA/?img_index=8&stkn=MXQweTlwOHlnZG5ycQ%3D%3D

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