30/06/2005

Movimentos de educação de todo mundo pressionam G8

Dia 30 de junho, bonecos representando crianças, jovens e adultos brasileiros fora da escola serão entreguesà Embaixada do Reino Unido, em Brasília, para serem levadosa Gleneagles (Escócia), na Reunião do G8(grupo dos oito países mais industrializados do mundo mais a Rússia),que acontece entre 6 e 8 de julho. São dez bonecos mamulengos que se juntarão a maisum milhão de outros bonecos feitos em vários países, que representam pessoas que não tiveram acesso ao direito à educação.

Os bonecos brasileiros representarão personagens reais, indicados pelos comitês da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. A ação faz parte de uma mobilização mundial puxada pela Campanha Global de Educação (www.campaignforeducation.org) com o objetivo de pressionar os governantes a honrarem suas promessas em relação à educação.

Na parte da manhã, às 9h, antes da visita è Embaixada do Reino Unido, às 11h30, que atualmente preside o G8, os bonecos serão utilizados em uma atividade educativa na Escola Classe 18, na cidade satélite de Ceilândia (DF), que contará com a participação de mais 150 crianças. "A proposta é discutir de forma lúdica e interativa com as elas o significado da reunião do G8, a importância do investimento na educação pública e da participação cidadã", conta Denise Carreira, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

As crianças serão convidadas a escreverem mensagens ao G8, a serem entregues em uma mala colorida ao representante da Embaixada, junto com os bonecos mamulengos, confeccionados pela artista plástica Biba Rigo.

Contra a pobreza

Essa mobilização mundial de pressão sobre o G8 conta também com o apoio do Chamado Global para a Ação contra a Pobreza (GCAP- www.whiteband.org) em dezenas de países. O objetivo do GCAP é defender as políticas públicas nacionais e internacionais de combate à pobreza que, inclusive, sejam democráticas, transparentes e passíveis de controle por parte dos cidadãos e cidadãs.

Para isso, a CGAP propõe três temas focais: a justiça nas relações comerciais, o cancelamento das dívidas dos países e o aumento real no volume e na qualidade da ajuda oficial para o desenvolvimento. A secretária-executiva do GCAP-Brasil fica no Inesc, telefone(61) 3212-0227. Para aprofundar a discussão sobre o significado da reunião do G8, a Campanha lançou uma área no site (www.campanhaeducacao.org.br) com informações e textos de apoio.

Quais são as atuais condições da ajuda dos países G8 à educação?
Nos últimos anos, o investimento na área de educação aos países em desenvolvimento entrou na pauta do G8. Porém, muitos esforços e muitas promessas em relação ao acesso e permanência de crianças, jovens e adultos que estão fora da escola ainda precisam ser cumpridos.

Um relatório recente da Campanha Global pela Educação classificou o desempenho em educação de 22 países ricos. Cinco dos países ricos do G8 estavam no fim da lista. Os dois países mais ricos do mundo, os Estados Unidos e o Japão, dão menos de 10% de ajuda às metas da educação. Além disso, a maioria dos países G8 ainda gasta dinheiro muito em consultorias, mas não o bastante em livros e professores. Também deixam de focar sua ajuda onde é mais necessária - países pobres e aqueles onde a maioria das meninas não está na escola. (Fonte: Campanha Global pela Educação, 2005)

Mapa da Exclusão Escolar

Aqui no Brasil a educação pública é responsável pelo atendimento de 87% dos estudantes, cerca de 57 milhões de crianças, jovens e adultos. De acordo com a atividade de pesquisa Mapa das Crianças, Jovens e Adultos fora da Escola, parte da Semana de Ação Mundial 2004 (importante mobilização em defesa da educação pública de qualidade e que envolve há cinco anos milhares de pessoas dos quatro cantos do Brasil e do mundo), 48% dos entrevistados afirmam que gostariam de voltar a estudar.

A existência de vaga em escola próxima de casa, algum tipo de apoio financeiro (bolsas escola e trabalho) e a compatibilização de horários do trabalho e de estudo lideram reivindicações para o retorno à educação formal. Mais de 70 mil questionários da atividade de pesquisa foram distribuídos para os grupos, organizações, sindicatos, escolas e comunidades de todo o Brasil naquele ano.

A amostra, analisada pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM), pelo projeto Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião (Nepso), e pela Campanha Nacional, 12.604 questionários que representam 12.604 domicílios, distribuídos em áreas urbanas e rurais das cinco macrorregiões do país.

Outros dados

-A grande maioria (87%) dos entrevistados já passou pelos bancos da escola, e acabou saindo antes de concluir o ensino básico
- Para 39%, o abandono se deu no ciclo básico entre 1ª e 4ª série (39%) e outra parcela significativa saiu da escola entre a 5ª e a 8ª série (29%). Apenas 8% saíram da escola no Ensino Médio e 5% na alfabetização de jovens adultos
- O número dos que abandonaram a escola entre a 1ª e a 4ª série é maior nos que recebem atéum salário mínimo (43%) e menor nos que recebem mais do quequatro salários (28%). Quanto mais baixa a renda, maior é a dificuldade para a permanência na escola, levando crianças, jovens e adultos a enfrentarem um verdadeiro "funil"
- A maior parte está há mais de seis anos (58%) fora da escola e uma pequena porcentagem (8%) está fora somente há um ano
- Quanto à cor das pessoas fora da escola entrevistadas, a porcentagem dos afro-descendentes (pardos + pretos) é de 54%, dos brancos, 38%, indígenas 3% e amarelos 2%. Quanto menor a renda dos entrevistados, maior é a presença de pardos e negros e menor a de brancos
- Quanto ao motivo que levou estas pessoas a largarem a escola, 38% alegaram necessidade de trabalhar, 11% alegaram que não gostam da escola e falta de interesse, 8% a distância entre a escola e a casa, 7% por problemas familiares e por dificuldades financeiras e 4% por problemas de saúde e por dificuldade de aprender
- Das pessoas que pararam de estudar, 48% gostariam de voltar e 36% não gostariam. Questionados sobre o que faria com que voltassem a estudar, 10% alegaram a existência de vaga em escola próxima de casa, algum tipo de apoio financeiro (bolsa escola, bolsa trabalho), e conseguir trabalhar e estudar em horários compatíveis, 8% gostariam de ter maior oportunidade profissional com o estudo, 6% gostariam de encontrar escola de ensino supletivo, 3% gostariam de ter o apoio da família e 2% gostariam de se sentir mais acolhidos na escola e ter professores mais qualificados e motivados

Mais dados sobre o quadro da educação estãono site da Campanha Nacional (www.campanhaeducacao.org.br)

Algumas metas do Plano Nacional de Educação (Lei aprovada pelo Congresso em 2001)

Educação infantil (creches e pré-escolas)

- Meta: ampliação da oferta de educação infantil, de forma a atender, em 2006, a 30% da população de atétrês anos de idade e a 60% da população dequatro aseis anos. Até 2011, alcançar a meta de 50% das crianças dezero atrês anos e 80% das dequatro ecinco anos
- Situação atual: apenas 11,6% das crianças dezero atrês têm acesso a creche (IBGE, 2000). Com relação à pré-escola, 52,1% das crianças dequatro aseis anos freqüentam instituições de educação infantil (IBGE, 1999)

Ensino Fundamental

-Meta: universalização do atendimento de a toda a demanda do Ensino Fundamental até 2006, garantindo o acesso e a permanência de todas as crianças na escola
- Situação atual: o Brasil tem 1.495.643 crianças com idade entresete e 14 anos fora das salas de aula, cerca de 5,5% da população nessa faixa etária (IBGE, 2000). Quase 60% das crianças que concluem a 4ª série não sabem ler corretamente. De cada cem crianças que iniciam o Ensino Fundamental, somente 51 concluem a 8ª série.

Ensino médio

- Meta: oferecimento de vagas, até 2006, correspondentes a 50% da demanda para o ensino médio. Até 2011, atendimento de 100% da demanda
- Situação atual: segundo o IBGE (PNAD, 2002), somente 23,4% da população brasileira completou o Ensino Médio
Educação de jovens e adultos
Meta: alfabetização de dez milhões de jovens e adultos até 2006. Até 2011, erradicar o analfabetismo
- Situação atual: em 2000, o Brasil apresentava um índice de 13,6% de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais. Cerca de 16 milhões de pessoas com mais de 15 anos não são alfabetizadas.

Educação especial (destinada a pessoas portadoras de deficiências)

Meta: generalização do atendimento dos alunos com necessidades especiais na educação infantil e no Ensino Fundamental até 2011, inclusive por meio de consórcios entre municípios, quando necessário, provendo, nesses casos, o transporte escolar
- Situação atual: segundo o Censo Escolar de 2003, há 358.987 crianças com alguma deficiência freqüentando escolas, 144.583 delas em classes regulares da educação básica. Muitas crianças e jovens continuam sem acesso à educação especial

Educação indígena

- Meta: universalização, até 2011, da oferta às comunidades indígenas de programas educacionais equivalentes às quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, respeitando seus modos de vida, suas visões de mundo e as situações sociolingüísticas específicas por elas vivenciadas
- Situação atual: há no Brasil 220 povos indígenas, que falam 170 línguas e dialetos. Dos 300 mil indígenas, 75 mil estão em escolas indígenas. As organizações dos professores indígenas cobram dos governos melhores condições e maior autonomia e determinação dos povos indígenas sobre as suas escolas

Educação do campo (educação rural)

- Meta: organizar a educação básica no campo, de modo a preservar as escolas rurais no meio rural e imbuídas dos valores rurais
- Situação atual: 72% dos alunos da educação do campo estão com atraso escolar. Somente 24,9% das crianças dequatro aseis anos têm acesso à pré-escola e 4,5% dos jovens de 15 a 17 freqüentam o Ensino Médio. É nas áreas rurais e nos bolsões de pobreza que se encontra a maior parte da população não alfabetizada do País.

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