O caminho para publicar
Por Renata Costa
O Brasil ocupa o 17º lugar entre os países com maior número de artigos em periódicos científicos. Especialistas contam como é o processo e quais as dificuldades.
De pouco serve a pesquisa que não é divulgada. Nisto praticamente a maioria dos pesquisadores concorda. Apesar desta convicção, a participação do Brasil em trabalhos publicados em periódicos de circulação internacional é de 1,55%, com um total de 14.920 artigos em 2004. O país passou a ocupar, por isto, o 17º lugar no ranking de países com maior número de artigos publicados.
O país tem pesquisa de ponta, com grande reconhecimento mundial em algumas áreas, uma grande pressão para que os professores e pesquisadores publiquem, mas as dificuldades existem. "Um dos problemas, especialmente em universidades privadas, é a alocação de horas do professor para a produção. Um professor que tenha mais horas para pensar, pesquisar e escrever pode fazer dois papers, enquanto outro em condições menos propícias, com maior carga horária de aulas e número maior de orientandos fará apenas um", diz a coordenadora da pós-graduação em Psicologia da PUCRS, Maria Lúcia Tiellet Nunes.
A segunda complicação é o fluxo dos artigos nas revistas. Como algumas têm periodicidade anual ou semestral, o paper pode demorar para ser publicado, dependendo do número de trabalhos que estão "na fila" antes dele. Isto é ainda mais complicado se for um periódico de classificação A segundo o sistema Qualis. (Leia mais sobre isso abaixo).
Outro problema é o re-trabalho. A maioria dos periódicos trabalha com a aprovação por pares, ou seja, pesquisadores da mesma área que são parte do corpo editorial da publicação avaliam os papers e podem pedir detalhamento, informações ou outras mudanças no material. Aí cabe ao autor do artigo ter de refazer o trabalho. "Às vezes o pesquisador percebe que vai demorar demais para fazer as modificações pedidas e acaba achando mais vantajoso fazer outro material mais completo para outra revista de maior prestígio", diz Maria Lúcia.
Os especialistas são unânimes em dizer que o fato de ser um pesquisador brasileiro não interfere na hora de publicar. "Acho que isso depende muito da área, porque em algumas já existe uma consagração da pesquisa brasileira. ´Panela` de pesquisadores sempre vai existir, mas acho que não interfere", explica a professora da PUCRS.
Publicar para se fazer conhecer
Sabendo já das dificuldades para se publicar, é importante saber como evitá-las ou minimiza-las. Em primeiro lugar, o pesquisador precisa estar "por dentro" do ambiente e da produção acadêmica. "O aluno que vai publicar precisa estar inserido em um bom grupo de pesquisa, numa instituição séria e competente que faça pesquisas relevantes. Esta é a condição inicial", afirma Marcelo Knobel, professor do Instituto de Física da Unicamp e ele próprio com uma lista interminável de artigos publicados em periódicos internacionais. A universidade campineira teve 1.870 trabalhos publicados em revistas científicas em 2004.
O segundo passo é ter uma idéia nova, pois só assim é possível contribuir para sua área de pesquisa. "Depois é preciso seguir as ferramentas básicas para uma boa investigação científica, formular a hipótese do trabalho, baseado no que já foi descrito na literatura. Tudo isto para comprovar conceitos, teorias e idéias preliminares que depois serão testados à luz dos resultados", diz Knobel.
Em seguida, é necessário estar constantemente renovado sobre o que ocorre na pesquisa mundial, participar de congressos, cursos, ler revistas e manter-se atualizado sobre o que há na literatura da área de estudo. Por isso, falar, ler e escrever em inglês é fundamental, segundo o professor da Unicamp.
Outro ponto é conhecer muito bem as publicações de sua área de pesquisa. "A gente já produz o artigo pensando no tema, no estilo, no público e nas normas da revista. Os artigos já devem ser enviados no tamanho que o periódico exige, no idioma e nos padrões que eles adotam. Se não for assim o paper não é publicado, ainda que a pesquisa seja excepcional", explica Maria Lúcia.
Classificação Qualis
O Qualis é um sistema de classificação adotado pela CAPES através do qual os programas de pós-graduação e professores podem se basear para saber a importância e o alcance de publicações científicas de suas áreas.
Cada área de conhecimento tem um comitê que avalia todos os periódicos onde seus ´pares` publicam. "Cada comitê aplica um instrumento para fazer esta avaliação, a partir de dados como diversidade de pessoas que publicam, quais são os pareceristas que escolhem os artigos, e outros dados. De acordo com esta pontuação, a revista ganha classificação A, B ou C, que são índices de qualidade. E também o índice de abrangência, que indicam se a revista tem circulação nacional, regional ou internacional", explica Miriam Grossi, professora do Departamento de Antropologia da UFSC e ex-representante de Antropologia da CAPES no triênio 2001-2004.
Esta avaliação Qualis é revista anualmente e os especialistas de cada área que participam deste trabalho mudam a cada três anos. A avaliação de um periódico pode mudar, pois ele pode ampliar sua abrangência, compor novo corpo editorial mais capacitado e outras melhorias.
O decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, professor Norair Rocco, destaca a importância do sistema, para indicar aos pesquisadores e leitores quais os melhores meios de se divulgar sua pesquisa. "É uma sistemática recente, importante e que precisa ser aperfeiçoada. O problema que vejo é que ainda há assimetria na avaliação. Enquanto alguns grupos são mais exigentes, outros acham que todos os periódicos são excelentes", diz.
Rocco fala ainda como as áreas devem ser vistas de forma individual. "Em áreas de tecnologias, por exemplo, onde o conhecimento é cumulativo e o desenvolvimento conseqüente depende daquilo que já foi publicado e pesquisado, é preciso mais agilidade. Neste caso, publicações eletrônicas são muito importantes, porque têm menor custo e maior agilidade", explica.
Em meio a este universo tão amplo de possibilidades para publicação, seja por meio de revistas impressas, livros ou periódicos eletrônicos, a dica valiosa é estar sempre perto de alguém que tenha experiência no assunto. "Professores com mais experiência normalmente conhecem melhor as publicações, os estilos e podem fazer críticas aos artigos antes de serem enviados", diz Maria Lúcia.