O Câncer da Diferença: O Racismo que Sangra em Silêncio
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Ninguém melhor que o preto para entender as dores do racismo, os sonhos roubados e as vidas dizimadas de seus ancestrais. Mesmo que a sociedade tente banalizar a situação, chamando-a de vitimismo, a realidade é dura para os pretos — principalmente os periféricos e de comunidades.
Ao analisarmos a história brasileira, o racismo é explicitado em todos os períodos: ora de forma gritante, como no Brasil Colônia; ora de forma hipócrita, como nos dias de hoje, ao afirmarem que nosso país é "multirracial". A triste realidade é que os privilégios são para os brancos.
Não precisamos citar estudos de casos; basta observarmos as oportunidades oferecidas para ambas as raças. Não precisamos ser pretos para percebermos que essas pessoas têm seus direitos negados. Levantamentos recentes da comunidade carcerária apontam que 70% dos presos são negros e 75% dos presos sem julgamento também são pretos. Enquanto brancos aguardam julgamentos em liberdade, basta os pretos serem suspeitos para serem detidos até a sentença. Ou seja: o branco, para ser preso, tem que ser julgado e declarado culpado; o preto, para ser solto, tem que ser julgado e declarado inocente — ficando preso até que prove a própria inocência. Isso quando, claro, não é julgado e condenado à morte pela própria polícia, que encontrará uma forma de alegar legítima defesa.
O racismo subtrai o que temos de mais importante: a nossa humanidade. Sua persistência é um fardo que impede a verdadeira justiça. O racista representa o que há de mais vil no ser humano; é o câncer que legitima a violência contra o povo preto. Essa inferiorização é reforçada por instituições políticas e religiosas, que induzem à aceitação de uma suposta inferioridade por meio de uma moralidade de submissão, resiliência e do "sangrar em silêncio".
Dados do Atlas da Violência 2025 e do Anuário da Segurança Pública apontam um cenário caótico, onde imperam a desigualdade racial e o descaso. É desolador saber que 77% das vítimas de assassinato são pessoas pretas; que, a cada 12 minutos, um negro é morto no país; e que eles têm 2,7 vezes mais chances de serem vítimas de homicídio. Só em 2024, 86% dos mortos em intervenções policiais foram negros. Ainda assim, há políticos afirmando que o Brasil não é racista.
Existe uma hierarquia social na qual o negro não está inserido. Ele representa um povo que teve sua cultura subtraída e sua dignidade usurpada, sob o pretexto religioso da "maldição de Cam". No século XV, teólogos e colonizadores europeus alegavam que os africanos eram descendentes de Cam para validar a escravidão como punição divina. Houve uma manipulação das escrituras para sustentar o sistema econômico de opressão, alegando que o preto sequer teria alma. Essa "Teologia do Poder e do Medo" ainda ecoa em certas instituições hoje.
Para quem defende a falácia de que o país não é racista, explique isso aos familiares da médica Andréia Marins Dias. Ela foi assassinada em Cascadura (RJ) por policiais militares que alegaram ter confundido seu veículo. Em um procedimento normal, o correto seria parar e pedir a documentação, em vez de alvejá-lo a tiros.
Que a educação possa trabalhar a consciência antirracista, pois a sociedade não deve mais tolerar esse câncer que corrói as entranhas desses sujeitos vis.