O Efeito de Manada e a Perda da Autonomia
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
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Somos seres sociais. Isso foi afirmado pelo poeta inglês John Donne quando ressaltava em seu poema o verso “homem algum é uma ilha”, e já era definido por Aristóteles há 2500 anos ao nos classificar como “animais políticos”. Por isso, a vida em sociedade requer consenso, o qual exige que cada indivíduo contribua com sua vivência e experiência.
Consenso, no entanto, não é o mesmo que conformidade cega. É algo consciente, que entende a importância da pressão social, mas não cede apenas porque a maioria acredita ser o certo. Afinal, o fato de todos estarem fazendo algo errado não faz a ação ser correta; logo, consenso não é sinônimo de verdade. Pensemos: a maioria, há muito tempo, acreditava que a Terra era plana. Fazer o que é certo exige coragem para divergir do que é imposto no pensar e no agir.
Tomemos como exemplo algumas situações que outrora eram irrefutáveis, até alguém divergir e provar o quão equivocada estava a sociedade. É o caso da teoria do modelo geocêntrico, em que a humanidade inteira tinha a certeza de que a Terra era o centro do universo e que o Sol girava em torno dela. Todos os que pensavam diferente eram perseguidos e silenciados. Mas Galileu Galilei fez com que outros revessem esses conceitos e, hoje, está comprovado que estivemos errados por centenas de anos.
Outro ponto a ser considerado tem forte relação com a higienização dos profissionais de saúde. Até meados do século XIX, os médicos atendiam partos e faziam cirurgias logo após examinar cadáveres, sem lavar as mãos. Foi o médico Ignaz Semmelweis que inseriu o hábito de lavar as mãos, esclarecendo que isso reduziria a mortalidade dos pacientes. Porém, ele foi tão ridicularizado por outros médicos a ponto de ser internado em um hospício. Hoje, sabemos o quão vital é essa preocupação.
Outro capítulo triste na história da humanidade está ligado à escravidão, que por milênios foi instituída como algo legal e era o centro da economia, sendo moralmente aceita pela maioria das civilizações ao redor do mundo. Era uma prática universal que perdurou até o século XIX no Brasil e, para muitos, era algo mais que justo, afinal, as economias prosperavam graças a ela.
Enfim, o consenso não tem relação com a conformidade cega imposta pela pressão social, pois esta nos impede de fazer aquilo que gostaríamos por medo da opinião alheia e de como seremos vistos pelos que pensam diferente. Uma forma de fugir ao coletivo alienado e até mesmo à dissonância cognitiva é por meio de perguntas que fomentem o discernimento, a liberdade de escolha e, inclusive, o entendimento do porquê se deve ou não fazer o que está sendo imposto, bem como os motivos dessa imposição.
Quando se segue a maioria, o indivíduo se subtrai da autoconsciência e da autonomia intelectual, passando a fazer parte do comportamento de manada — que ocorre quando indivíduos seguem as ações, opiniões ou decisões de um grupo maior, abrindo mão do próprio julgamento crítico. Infelizmente, a internet tem dado cada vez mais força a esse comportamento, pois o senso de pertencimento ao tribalismo digital faz com que o indivíduo anule seu pensamento crítico por medo de se sentir excluído do grupo que endossa essa dinâmica.
Assim tem que ser a educação. Ela tem que desenvolver no cidadão toda sua capacidade de discernimento, além de fomentar sua autonomia intelectual para que ele não seja mais um nesta multidão imersa em dissonância cognitiva.