O Efeito Homer
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
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Na década de 1990, a televisão brasileira comprou os direitos de transmissão da animação Os Simpsons. Cada episódio mostrava uma situação vivenciada por essa família composta por cinco integrantes, cada um com sua própria singularidade. A esposa e mãe, Marge, é vista como o porto seguro, a voz da razão e aquela que tenta manter o lar funcional. O filho Bart é o rebelde incompreendido, que adora skate e pegadinhas, sendo considerado o terror de Springfield. Maggie é o bebê que nunca cresce e não larga a chupeta, enquanto Lisa é a intelectual e mente brilhante da casa; ativista ambiental, seu sofrimento reside em ser inteligente demais em relação aos outros moradores da cidade.
Já Homer é o preguiçoso, desastrado e, de forma cômica, o portador de um agravante déficit cognitivo. O ponto de virada dessa dinâmica ocorre no episódio denominado “É o Homer” (HOMR), da 12ª temporada, no qual sua falta de inteligência é explicada por um giz de cera alojado em seu cérebro desde a infância, limitando toda a sua cognição. Ciente de que o objeto era a razão de sua limitação, a equipe médica o retira e, de imediato, Homer torna-se muito inteligente, mudando inclusive sua forma de pensar.
Ele passa a ler e a ter conversas interessantes com sua filha Lisa. O verdadeiro problema começa quando ele percebe que coisas que outrora não o incomodavam passam a ser incômodas e difíceis. Um dos agravantes é a falta de diversão, já que ele se torna mais seletivo, inclusive com as amizades. Com o passar do tempo, sua maturidade intelectual dificulta cada vez mais a convivência com os demais, gerando uma angústia profunda. Ao final do episódio, Homer pede para seu amigo Moe Szyslak, dono do bar, colocar o giz novamente em seu cérebro. Ele percebeu que o motivo de sua tristeza era a própria inteligência, concluindo que a ignorância era, de fato, uma bênção, e que voltar a ser “burro” era a única forma de recuperar a felicidade e o senso de pertencimento.
A ficção reflete a realidade: a ignorância é um anestésico, porque o conhecimento dói. Dói porque nos faz perceber as falhas do mundo, a solidão da incompreensão e a rejeição social. Como Homer escreveu em uma carta para sua filha: “Lisa, estou pegando a saída dos covardes”. Tragicamente, essa tem sido a nossa realidade atual. Há muitos que preferem continuar com o "giz no cérebro" e negar os fatos, acreditando nas piores estultices para manter o senso de pertencimento a uma massa de manobra, já que a falta de discernimento alimenta sua alienação e felicidade fictícia.
Diante disso, cabe à escola a missão de extrair o giz do cérebro dos alunos, embora as elites insistam em inseri-lo novamente. Afinal, uma cabeça que não pensa não se sente incomodada e tampouco contesta o status quo.
Estamos vivendo uma era em que o protagonismo cognoscente é visto quase como uma aberração. Nietzsche já apontava que, em sociedades decadentes e manipuladoras, a violência deixa de ser apenas física e passa a ser psicológica e reputacional. Pela preguiça generalizada de pesquisar e checar informações, os oportunistas fazem da narrativa uma arma. O manipulador não necessita da força física, mas sim da eloquência e das palavras certas para fazer a mentira prevalecer, visto que o "giz" impede o cidadão comum de perceber a falácia. Para se proteger dessa engrenagem, Nietzsche propunha um processo profundo de autonomia intelectual. Para o filósofo, o pensamento crítico não se trata apenas de uma habilidade lógica, mas sim de uma postura que requer coragem diante da vida.