12/08/2026

O Espectro do Negacionismo como Estratégia de Engajamento Eleitoral

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Alguns setores extremistas voltaram a alimentar o negacionismo por meio de narrativas que distorcem fatos científicos e baseiam dados de saúde em puros achismos. Essas argumentações sustentam-se em pesquisas superficiais e sem metodologia validada, cujo objetivo é promover um pânico moral. Essa estratégia, utilizada por políticos radicais, visa provocar medo e desconfiança nas instituições, gerando engajamento eleitoral para inflar o próprio capital político.

Embora não se possa afirmar categoricamente que a história se repete, o país já havia enfrentado uma onda negacionista em relação às vacinas na época de Oswaldo Cruz, em 1904. Naquele período histórico, contudo, a resistência popular justificava-se pelo desconhecimento científico legítimo e pela violação física dos lares pelas forças policiais. Apesar disso, o grande mérito atribuído ao pesquisador e cientista Oswaldo Cruz foi a consolidação da ciência moderna e da vacinação em massa como políticas públicas de Estado no Brasil, o que salvou milhares de vidas a longo prazo. Outros méritos decorrentes dessa ação pioneira incluem a erradicação e o controle de doenças endêmicas, a criação da Ciência Nacional (Manguinhos), a consolidação de uma visão de saúde de longo prazo e o despertar da consciência sanitária. Na contramão desse avanço, a pesquisa de Lent (2019) [1] registrou que, durante a Ditadura Militar, houve perseguição a cientistas, demissões em massa e o exílio forçado de pesquisadores em eventos históricos — como o "Massacre de Manguinhos" —, ações que visavam, deliberadamente, enfraquecer o poder da ciência no país.

Conforme afirma Finkelman (2002, p. 164)[2], “historicamente, o sarampo, associado à desnutrição, representou importante causa de mortalidade em crianças no Brasil”. De acordo com o autor, até a década de 1980, o Brasil registrou centenas de milhares de casos e 11.354 mortes concentradas em apenas quatro anos (1980 a 1984). Em 1992, com a adoção de uma abordagem epidemiológica mais agressiva, o país reduziu em 96% a incidência da doença e, no ano 2000, já não havia mais registros de casos autóctones (adquiridos na própria comunidade) de sarampo em território nacional. Todavia, devido ao extremismo político que dissemina fake news sobre os imunizantes, o ano de 2026 testemunhou o ressurgimento da infecção. Em apenas oito meses, surgiram 23 casos confirmados de sarampo no Estado de São Paulo[3], afetando uma patologia que já era considerada controlada e erradicada — um resultado direto do retrocesso provocado pelo negacionismo contemporâneo.

Infelizmente, a política extremista tenta ressuscitar o espectro do negacionismo por meio de parlamentares que buscam proibir, via propostas legislativas na Câmara dos Deputados, a obrigatoriedade de vacinas infantis. Dentre essas propostas, destacam-se o veto à vacinação infantil obrigatória, a criminalização da chamada "coação vacinal" e a tentativa de derrubada de Notas Técnicas de órgãos reguladores. Como advertem Costa e Martins (2025)[4], tais medidas podem acarretar danos sem precedentes à sociedade, ressaltando o impacto imediato na queda dos índices de cobertura vacinal. Esse cenário culmina no retorno de doenças graves erradicadas e na sobrecarga do sistema de saúde, gerando graves consequências sanitárias e epidemiológicas, como a perda da imunidade coletiva, sequelas irreversíveis e óbitos.

Além disso, tais ações provocam um severo impacto econômico no Sistema Único de Saúde (SUS), resultando na superlotação de hospitais, na elevação dos custos públicos e no absenteísmo dos pais no mercado de trabalho. Somam-se a isso as implicações sociais e legais, que geram vulnerabilidade no ambiente escolar, restrições a viagens internacionais e tentativas de alteração no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) — cujo Artigo 14 estabelece explicitamente a obrigatoriedade da vacinação. Diante disso, faz-se indispensável uma educação esclarecedora. Quando o discente desenvolve discernimento científico, ele se torna capaz de refutar o negacionismo, adquirindo uma consciência política crítica que rejeita lideranças dispostas a sabotar a ciência em troca de vantagens eleitorais.

 

 

[1] LENT, H. O massacre de Manguinhos. In: O massacre de Manguinhos [online]. 2nd ed. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ: Edições Livres, 2019, pp. 22-74, Memória viva collection. ISBN: 978-85-7541-640-2. https://doi.org/10.7476/9788575416402.0003.

[2] FINKELMAN, J., org. Caminhos da saúde no Brasil [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002. 328 p. ISBN 85-7541-017-2. Available from SciELO Books .

[3] https://www.cnnbrasil.com.br/saude/casos-de-sarampo-sobem-para-23-no-estado-de-sao-paulo-veja-recomendacoes/

[4] COSTA, Larissa Pereira; MARTINS, Lívia Mattos. Impactos da queda da cobertura vacinal na reintrodução de doenças imunopreveníveis: uma revisão da literatura. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 7, n. 2, p. 12-27, 2025. Disponível em: doi.org. Acesso em: 10 ago. 2026.

Assine

Assine gratuitamente nossa revista e receba por email as novidades semanais.

×
Assine

Está com alguma dúvida? Quer fazer alguma sugestão para nós? Então, fale conosco pelo formulário abaixo.

×