O Fenômeno do "Farmar Aura" e o Capital Social na Dinâmica Escolar Contemporânea
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
A filosofia nos instiga à busca pelo viés da dúvida, que nos leva a procurar respostas para as questões existenciais, como também pelo viés do autoconhecimento, de forma a fugir da falta de propósito na vida — metaforicamente desenhada como um abismo emocional. Naturalmente, algumas pessoas buscam incansavelmente preencher esse vácuo com o consumo excessivo de telas e redes sociais, ansiando por uma autovalidação para se sentirem inseridas em um meio marcado pela hipocrisia e pela ostentação, o que explicita a própria miséria moral em que se encontra o cidadão.
Por essa seara, indivíduos tentam de todas as formas se popularizar nas redes, vendendo uma imagem ilusória de seu frágil caráter e buscando aprovação a qualquer preço, inclusive o da própria dignidade. Expondo-se a um ridículo sem precedentes para transmitir uma aparência de confiança, popularidade ou prestígio, caem justamente em uma falácia; afinal, se as pessoas sabem do seu potencial, o seu nome as precede.
O que alguns têm usado como uma brincadeira nas redes sociais, sob forte influência das mídias, tem resvalado também nos jovens, afetando o seu contexto educacional. Busca-se mais o "ter" do que o próprio "ser", vivendo-se, dessa forma, uma existência efêmera que trará consigo o vazio existencial citado anteriormente. Este fenômeno poderá ter como reflexo a depressão, o mal contemporâneo que corrói todo lampejo de vida, causando o que muitos chamam de "doença da alma".
O conceito de "Farmar Aura" é algo bem contemporâneo, baseando-se na junção da palavra "farmar" — extraída da coleta de recursos em games que se baseiam em pontos de carisma, estilo, respeito ou moral — com o termo "aura", que representa presença marcante ou confiança. O ato é seguido pela reprodução de coreografias virais como "six seven", sinalizando que o indivíduo acabou de acumular prestígio e que está com alta aceitação com o público por meio do capital social elevado, ressaltado nas falas de Pierre Bordieu[1].
Diante desse novo cenário, torna-se necessária uma análise acadêmica para encontrar formas de aproveitar o momento e aplicá-lo no processo de ensino-aprendizagem por meio das metodologias ativas e da gamificação. Isso porque as expressões “farmar aura” e “six seven” transformaram-se em um modismo que deu um ressignificado à dinâmica entre os corpos discente e docente nas escolas brasileiras. Se essa tendência não for trabalhada de forma correta, acarretará somente indisciplina, quebras constantes do bom fluxo das aulas e o efeito manada.
Vale ressaltar situações em que jovens instigam os professores a perderem o controle da aula para que "percam aura", expondo-os a situações constrangedoras e ridicularizando-os nas mídias eletrônicas e redes de relacionamento.
Caso o professor consiga observar uma brecha para trabalhar o letramento digital, perceberá caminhos inovadores de engajamento pedagógico, como a gamificação e a conexão genuína. Pode-se utilizar o método de pontuação por meio de regras que ditarão ações positivas e negativas para a dinâmica, tais como: realizar as tarefas, ajudar os colegas, respeitar os demais alunos, manter a sala limpa e fazer uso da cordialidade, dentre outros comportamentos aceitáveis. Essas atitudes somarão cada vez mais pontos de "aura", perpassando, claro, pelas competências da BNCC por meio da inteligência emocional.
[1] BOURDIEU, Pierre. O capital social: notas provisórias. In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio (Orgs.). Escritos de Educação. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2003.