11/09/2004

O futuro está em outra parte


Por Antoaneta Bezlova
Pequim — A competição duríssima nas universidades da China e um cenário profissional nada promissor levam milhares de estudantes chineses a se educarem no exterior, o que converte esse país na maior fonte de estudantes estrangeiros no mundo. Enquanto esses jovens de famílias ricas inundam universidades de outros países, alguns críticos questionam se os títulos que obtêm refletem verdadeiros êxitos acadêmicos ou são apenas parte da estratégia dessas instituições para encherem seus cofres. Em menos de cinco anos, a China se transformou no maior mercado de estudantes que pagam altas mensalidades.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2002 cerca de 460 mil chineses estudavam em 103 países, principalmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Em conjunto, esses estudantes gastam cerca de US$ 1 bilhão por ano. Somente na Grã-Bretanha, o número de estudantes chineses aumentou 70% entre 2001 e 2002, enquanto na Austrália e no Canadá subiu 50%. Por outro lado, a quantidade de chineses que pagam seus estudos universitários de seu próprio bolso aumentou de 7%, em 1981, para 93% em 2003, segundo o Ministério da Educação da China.

Embora isto seja, em parte, o resultado do crescimento econômico, o custo universitário de US$ 20 mil a US$ 30 mil ao ano continua fora do alcance da maioria da China, onde a renda anual per capita era de US$ 1 mil no ano passado. Entretanto, muitas famílias de classe média fazem um enorme sacrifício para enviarem seus filhos a universidades no exterior, na esperança de conseguirem perspectivas profissionais melhores.

Grace Zhang, que aperfeiçoa seu inglês em um instituto de Londres, contou que seu pai, um empresário da província de Guangxi, paga seus estudos. "Todo seu ganho dos últimos cinco anos foi para pagar meus estudos na Inglaterra. Gastávamos apenas em comida e coisas indispensáveis. Estou aqui graças ao sacrifício de meus pais", disse à IPS em uma entrevista na capital britânica. Wang Xianru, morador de Pequim, planeja vender o apartamento de sua família e ir viver com sua sogra para financiar os estudos de sua filha na Grã-Bretanha. "Trabalhei duro para comprar meu apartamento, mas a educação da minha filha é mais importante. Não conseguirá um emprego digno se não falar inglês fluentemente e não tiver um diploma no estrangeiro", afirmou.

O crescente número de chineses que aspiram estudar no exterior significa uma bonança financeira para as universidades estrangeiras, que vêem neles uma oportunidade de subsidiarem seus cursos e pesquisas. Isto levanta muitas questões no ambiente acadêmico.

Durante os exames para ingresso nas universidades do último verão, meios da imprensa britânica queixaram-se que a enxurrada de estudantes estrangeiros estava afetando o nível acadêmico em algumas das mais famosas universidades da Grã-Bretanha, como Oxford e a Escola de Economia de Londres. "Vendem-se diplomas em universidades britânicas", era o título do jornal esquerdista The Observer. "Vagas universitárias para estrangeiros ricos", anunciava o The Sunday Times. Pesquisas independentes dos dois jornais demonstraram que as universidades da Grã-Bretanha tornaram-se extremamente dependentes do dinheiro pago pelos estudantes chineses e de outras nacionalidades, e que muitas preparam exames de ingresso com menor nível de exigência para os estrangeiros do que para os britânicos.

Os estudantes estrangeiros pagam até US$ 52 mil por ano por um diploma universitário — seis vezes mais do que os britânicos — e até US$ 7 mil por mestrados em áreas acadêmicas tradicionais. "Existe o risco real de nossas universidades escolherem os estudantes não por sua capacidade em aproveitar a educação superior, mas por poderem pagar. Isto coloca em risco o nível acadêmico de nossas universidades", alertou Tim Collins, secretário britânico da Educação, citado pelo The Sunday Times. A China representa a maior fonte de estudantes estrangeiros não-europeus para a Grã-Bretanha. Segundo o Conselho Britânico, os estudantes chineses passaram de menos de quatro mil em 1998 para 32 mil no ano passado. Este aumento reflete, em parte, a redução da preferência dos estudantes estrangeiros pelos Estados Unidos, o maior receptor, desde os atentados de 11 de setembro de 2001. (IPS/Envolverde)

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