O Gorila Invisível na Educação
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Em 1999, dois psicólogos conhecidos como Daniel Simons e Christopher Chabris fizeram um experimento que ficou conhecido como o experimento do Gorila Invisível, cujo intuito era provar o fenômeno psicológico intitulado "cegueira por desatenção". Isso porque, de acordo com os pesquisadores, quando focamos em uma atividade específica, a nossa atenção, por ser seletiva, desconsidera por completo eventos que acontecem em concomitância; isto é, ficamos completamente cegos a estímulos óbvios e inesperados que se manifestam de forma explícita diante de nossos sentidos.
O experimento se baseou em um jogo de basquete com um time usando roupas brancas e outro, roupas pretas. O único objetivo era que as pessoas contassem o número exato de passes realizados pelo time de uniforme branco. Só que, durante o jogo, uma pessoa fantasiada de gorila entrava no meio da cena, parava e fazia os trejeitos de gorila, como batidas no peito; isso permanecia na tela por cerca de 9 segundos e ela ia embora. É interessante perceber que, das pessoas que participaram do experimento, 50% sequer viram o gorila[1].
Como é possível, em meio a uma partida de basquete, aparecer um gorila e ninguém perceber[2]? De acordo com as explicações dos psicólogos, isso acontece porque a nossa atenção é seletiva, ou seja, o nosso cérebro, por meio de um filtro, desconsidera o que é visto como desnecessário e direciona o foco apenas no que foi determinado como prioridade. Isso faz com que sua percepção fique deficiente, apesar de a visão registrar o estímulo.
Interessante que o experimento realizado pelos pesquisadores gerou o livro intitulado “O Gorila Invisível”, que explora nossas limitações e ilusões no dia a dia, abordando temas como atenção, memória, confiança, conhecimento, causa e potencial. Tudo isso para demonstrar que ignoramos o óbvio, temos falsas memórias e que a confiança em excesso nos faz cometer erros irreparáveis.
Obviamente, esta teoria pode ser estudada na seara da educação, já que explica que o excesso de foco ou a distração fazem com que informações relevantes sejam ignoradas. Isso porque a imersão do aluno em uma atividade causa desinteresse em absorver novos estímulos; ou seja, o hiperfoco pode contribuir para a perda do contexto. Isto é: ao copiar o conteúdo ao mesmo tempo que ouve uma explicação do professor, o aluno acaba perdendo a explicação. Sem contar que, ao realizar duas atividades concomitantemente — como anotar o conteúdo ministrado pelo professor e mexer no celular —, o perigo do multitasking é iminente, pois isso faz com que o cérebro crie pontos cegos, o que gerará lacunas severas no aprendizado.
Bailer e Tomitch (2016)[3] corroboram as falas acima ao afirmarem que o cérebro humano não processa várias tarefas simultaneamente e, quando isso é exigido, gera perda de concentração, estresse e uma queda no desempenho acadêmico do aluno. Para os autores, ser “multitarefa resulta em demonstrar desempenho inferior em uma das tarefas”.
O fato é que o gorila invisível pode também atuar na docência, uma vez que o professor, preocupado em cumprir sua grade curricular, cronogramas, diários e outras atividades burocráticas que lhe são impostas, é impedido de perceber situações em sala de aula, como desinteresse dos alunos, bullying, incompreensão e sofrimento emocional, dentre outros males que dificultarão a aprendizagem do estudante. Isso pode implicar, inclusive, em evasão ou no desencadeamento de situações piores, como violência física ou autoextermínio.
Enfim, que possamos ensinar nossos alunos a lidarem com situações e a não confiarem cegamente em suas tarefas que são feitas automaticamente, já que o óbvio pode ser crucial em sua carreira, assim como foi com o salto mortal de uma mulher de 21 anos[4].
[1]https://revistaforum.com.br/cultura/o-experimento-do-gorila-invisivel-e-os-limites-da-percepcao-humana/
[2] https://www.instagram.com/reel/DPhhxW7CVCt/
[3] BAILER, C.; TOMITCH, L. M. B.. Estudos comportamentais e de neuroimagem sobre multitarefa: uma revisão de literatura. Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto), v. 60, n. 2, p. 403–425, maio 2016.
[4] https://www.instagram.com/reel/DZilUaslKEd/