O grande desafio do educador é ver as transformações da sociedade, para além do livro didático, afirma professor
Por Marana Borges e Verónica Oliveira
“Educação é cultura? Cultura é educação?”. Com este questionamento a Faculdade de Educação (FE) da USP promoverá de 29 a 2 de setembro a III Semana da Educação. Pedro Jacobi, professor da FE que mediará a mesa de abertura do evento, defende que “educar nada mais é do que dialogar com a cultura”. Para além das salas de aula e dos muros da escola, a educação seria um instrumento de transformação social e cultural. O grande desafio do educador aqui é estar atento a essas mudanças, criando propostas educativas alternativas que levem em conta as especificidades regionais.
Leia abaixo a entrevista que o professor concedeu ao USP Online:
É uma questão problemática, que permeará todo o encontro da Faculdade de Educação, mas cultura é educação e vice-versa?
Pedro Jacobi - Quando falamos de cultura, nós falamos de criação, algo presente na vida humana. A cultura é como a água para o peixe. É nela que se gera a consciência e o pensamento. Vocês podem perguntar, mas então cultura é tudo? Bom, o ser humano é um ser cultural. A cultura se modifica ao longo do tempo, e ela não é algo uniforme. Podemos viver numa sociedade de massas, mas mesmo assim existem grandes diferenças culturais, principalmente num contexto onde ainda há um conflito entre o tradicional e o novo, ambos com muitas diversificações. A cultura é tudo aquilo que tem a ver com o sentir, pensar e agir das pessoas, mas também com o sonhar, criar e transformar.
Então é a cultura que muda a educação?
Pedro Jacobi - Precisamos olhar menos como uma oposição e relação causal e muito mais como um diálogo. Paulo Freire falava na necessidade de formular fichas de cultura, ou seja, quadros desenhados que eram utilizados em classes de alfabetização como temas geradores. Isso significa que aqueles aos quais esses trabalhos se destinavam eram vistos como agentes culturais, e não apenas como receptores de conhecimento. Eles tinham cultura, embora não soubessem ler nem escrever. O processo de aproximação pensado por Paulo Freire procura sensibilizar o “outro” para aquilo que permeia sua vida. Ou seja, educação é um processo de transformação cultural. Educar é, portanto, dialogar com a cultura. Para a educação, a cultura é uma fonte: nos inspiramos na cultura para fazer educação. Quando escrevemos livros didáticos, nos baseamos na cultura da sociedade.
Nesse sentido, a educação é um instrumento de transformação social?
Pedro Jacobi - Do meu ponto de vista, a educação deve estar pautada pela perspectiva de pensar a transformação, a mudança. É uma transformação dos indivíduos em relação ao que está acontecendo na sociedade, uma compreensão das práticas sociais. Mas não é sempre isso que acontece. Para alguns, a educação acaba sendo muito mais uma referência de controle e domesticação. Com isso, ela acaba se limitando à capacitar e treinar a pessoa para o mercado de trabalho.
Olhar para a educação é olhar para aquilo que é essencial para o ser humano: formar-se e se abrir para um diálogo com a sociedade, porque o significado da educação está associado à possibilidade que os indivíduos terão, ao longo de suas vidas, de um engajamento e inserção social. No Brasil, as oportunidades são muito diferentes. Aqueles que tiveram acesso à escola têm mais oportunidade no mercado de trabalho e nas escolhas que farão, provavelmente de forma mais criativa.
O diálogo cultura-educação ultrapassa a forma tradicional da sala de aula e os muros da escola?
Pedro Jacobi - Se não ultrapassar, a relação ficará extremamente mecanicista, ou seja, se baseará num pensamento segundo o qual é preciso transmitir um conhecimento para que as pessoas tenham uma informação que irá servir para. Há muitas maneiras de se fazer educação e a cultura é uma dessas formas. O educador lida com cultura ao falar de direitos humanos, jovens, meio ambiente, esportes...todos esses temas estão presentes num processo de formação do conhecimento. Essa relação se manifesta não somente na sala de aula, mas inclusive na forma de se pensar a sociedade: se ela é mais ou se menos democrática, se motiva a mobilização social etc. Também práticas culturais menos convencionais, como grafitagem, fazem parte desse pensar a educação.
O senhor considera que ainda há um conflito entre cultura popular e cultura de massa nas práticas educativas?
Pedro Jacobi - Vivemos numa sociedade essencialmente urbanizada, que tem o contato com a cultura limitado à mediação da televisão, que, por sua vez, transmite um modo de vida urbano. Aqueles que estão mais distantes desse contexto, muitas vezes têm suas práticas resgatadas, mas encaradas como algo exótico. Essa vivência urbana ocasiona muitas transformações culturais. Se nos fecharmos em shopping centers , onde tudo segue uma lógica higienista, só poderemos ter manifestações a quatro paredes. Se as paredes da nossa cidade puderem ser transformadas em espaço criativo, teremos um lugar muito mais interessante. O Projeto Aprendiz funciona dentro dessa ótica, como um museu a céu aberto.
Há algumas práticas que, ainda que veiculadas pelos meios de comunicação, conseguem se constituir como resistências, como é o caso do rap. Mesmo que tenha sido revisto por esses meios, se mantém como referência de resistência. Existe aí um território complicado que é muitas vezes a apropriação de uma cultura de contravenção e criminalidade por uma cultura de massa. É uma tensão muito grande, visto que as regras sociais estão sendo desmontadas pela penetração do crime organizado na lógica de organização da sociedade, que trazem uma cultura específica. Mas não sou especialista na área para aprofundar o assunto.
Que dificuldades o educador encontra para inserir práticas educacionais alternativas na escola? O currículo fechado é uma barreira?
Pedro Jacobi - A questão do currículo fechado é sempre uma barreira. Mas o grande desafio desse educador é conseguir olhar além do livro didático, ver as transformações da sociedade. E apenas alguns segmentos da população estão mobilizados para olhar as mudanças sociais, a escola ainda está muito pouco disponível para isso. É por isso que precisamos de um professor cada vez mais reflexivo, que dialogue mais com as mudanças de sua época, situe seus alunos para que eles se tornem os protagonistas dessas transformações e compreendam o que elas representam.
As formas culturais e educacionais alternativas têm atores que as criam e multiplicam. Em geral, esses atores o fazem a partir de um questionamento, indignação, revisão de códigos etc.
O que o senhor acha da experiência dos CEUs?
Pedro Jacobi - Os CEUs trazem para as populações das áreas mais carentes a possibilidade de acesso a cultura. Eles intervêm na vida do bairro, fazem com que as pessoas se tornem muito mais interlocutoras da cultura e da educação. Há questionamentos em relação ao seu custo, mas tudo está associado ao momento de determinado governo. Neste momento há uma certa indiferença em relação ao que o CEU representa, ele não é olhado com tanta ênfase quanto no governo anterior.
Para mim, o fundamental é que o CEU possibilita que pessoas vejam cinema, teatro, dança, dentro da escola. A escola, portanto, é o lugar que acolhe as manifestações culturais e a comunidade. A questão é democratizar o acesso à cultura e educação, através de equipamentos, infra-estrutura, diversificação das atividades culturais etc.