12/03/2026

O Mal das Universidades Públicas

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

O Brasil não foi pioneiro na criação de universidades. A primeira instituição do gênero em nosso país surgiu em Manaus (1909), embora a Universidade do Paraná tenha se consolidado como a instituição pioneira em termos estruturais (em funcionamento desde março de 1913). Enquanto isso, no Peru, a primeira universidade foi criada em 1538, mas é a Universidad Nacional Mayor de San Marcos (1551) a reconhecida como a mais antiga em funcionamento contínuo nas Américas.

As universidades públicas têm sido apontadas como "nocivas" por movimentos autoritários e extremistas, que lhes tecem duras críticas. Sob essa ótica distorcida, o aluno aprovado é visto como um agente subversivo, prestes a ser doutrinado por "professores marxistas" em um ambiente supostamente desalinhado aos valores familiares. Para certas alas conservadoras, tais instituições seriam redutos de "pessoas perdidas" e inadequadas para os "crentes". A entrada de uma filha na universidade pública chega a ser narrada como uma decepção familiar profunda, a ponto de romper vínculos maternais. Em suma: a instituição pública "destrói" a estrutura de famílias tóxicas[1].

Mas por que a universidade incomoda tanto aqueles que ecoam dogmas de líderes religiosos? A demonização do ambiente acadêmico em esferas políticas e religiosas chegou ao extremo de um pastor — ironicamente envolvido em grandes casos de corrupção — aconselhar seus fiéis a não enviarem os filhos à universidade, preferindo que vendessem picolés.

O argumento extremista baseia-se na premissa da "doutrinação marxista" e da "degradação moral". Todavia, como ressaltado nas obras Educação e a não neutralidade (Ícone, 2024), Educação: uma questão de politizar (Ícone, 2022) e Educação: um ato político (Autografia, 2019), não existe educação neutra. Educar é, por essência, um ato de resistência.

Realmente, as universidades públicas representam um entrave para líderes e famílias ancoradas na hipocrisia e no falso moralismo. Isso ocorre porque o ensino público fomenta o senso crítico e a autonomia intelectual — ferramentas que os manipuladores detestam. Ao retirar o aluno do processo de "docilização" e domesticação subalterna, a universidade desenvolve o senso de justiça, igualdade e a verdadeira moral. Como já dizia Victor Hugo, a verdadeira moral não aceita a injustiça como algo normal.

Tais instituições são perigosas para o fundamentalismo porque nelas prevalece a diversidade de ideias e o respeito. Ali, a ciência substitui o negacionismo e o debate impera sobre a alienação. Não há espaço para a intolerância religiosa, visto que diferentes crenças coexistem e devem ser respeitadas. Desconstroem-se discursos dogmáticos e binarismos, fomentando o respeito à diferença e preparando o discente para o diálogo, longe de uma homogeneidade forçada. O pensamento crítico é o norte, pois, nesse contexto, a verdade nunca é absoluta: as narrativas são questionadas e os dogmas, derrubados.

Enfim, as universidades públicas são as verdadeiras "vilãs" para os anti-intelectualistas. Afinal, quanto mais ignorante é um povo, mais fácil é a manipulação por corruptores que lucram com a miséria moral alheia. Como ensinou Paulo Freire, a educação muda as pessoas, e é exatamente isso que a universidade pública faz: transforma o discente para que ele rompa as correntes da manipulação por meio de sua própria autonomia.

 

[1] https://www.facebook.com/reel/1248188693430284

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