O Mito da Medusa como Reflexo da Culpabilização da Mulher
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Temos muito a aprender com a arte e com a história da mitologia — seja grega, romana, nórdica, dentre outras —, que, por meio de seus deuses, sempre transmite uma história capaz de gerar analogias com o contexto em que estamos vivendo.
A psicanalista Mayra Siqueira, em um dos vídeos de sua "Série Mitos"[1], narra uma das versões de Medusa: uma mulher linda que transformaram em uma aberração, um monstro. Segundo a psicanalista, na primeira versão a Medusa já nasce monstro, mas a segunda faz mais sentido sob a ótica do raciocínio lógico, já que, se ela tivesse nascido monstro, dificilmente conseguiria se manter viva sendo o que era.
Essa versão mais aceitável foi proferida por Ovídio já no Império Romano (século I a.C.). Reza a lenda que Medusa era uma linda sacerdotisa violentada por Poseidon dentro do templo de Atena. Como consequência, ela foi punida pela própria deusa, que ignorou o feito de Poseidon, permitindo que ele saísse ileso de tal ato vil. De acordo com a psicanalista, o historiador Ovídio sempre contava suas histórias de forma a humanizar os monstros e a questionar o abuso de poder dos deuses, promovendo, em concomitância, uma crítica social disfarçada de mito. Para ele, a Medusa foi, na verdade, uma vítima injustiçada, havendo sempre um gesto político em suas narrativas e poesias para fazer as pessoas pensarem.
Essa versão faz mais sentido porque perpassa nossa empatia com a vítima, que frequentemente se pergunta: “o que eu fiz para merecer isso?”, como se ela mesma fosse culpada pelo desvio de caráter e pela maldade alheia. O fato é que, para Mayra Siqueira, o ponto central é o que a Medusa se torna depois: alguém que petrifica quem chega perto. Isso reflete o trauma e a dor de quem foi punida em vez de acolhida; uma dor que endurece e cria uma couraça protetora. Essa pessoa, como defesa, afasta a todos porque a aproximação é vista como perigo, e o ato de petrificar é apenas o reflexo de sua própria petrificação interna.
Observe que Poseidon continuou com sua vida de deus e ela virou a única culpada, mesmo sendo a vítima. Assim tem sido na nossa contemporaneidade. Quantas mulheres são violentadas e a sociedade machista embuti nelas a culpa, usando frases cruéis como: “se não estivesse com essa roupa, não teria acontecido”? E quantas mulheres são assassinadas porque seus parceiros enxergam nelas um simples objeto de posse, sentindo-se no direito de descartá-las a bel-prazer?
Recentemente, uma candidata em São Paulo foi eleita afirmando que o feminicídio "não existe" e que se trata de uma "armadilha semântica"[2], chegando a dizer que todo homem tem o direito de mandar a mulher ir para a cozinha[3]. No entanto, o feminicídio não é uma questão de semântica, mas sim uma realidade. Apenas de janeiro a julho deste corrente ano, foram assassinadas 848 mulheres que, em vez de terem em seus parceiros guardiões de seu bem-estar, encontraram neles seus mais terríveis algozes.
Um caso recente ilustra essa tragédia: um pastor evangélico[4], nas redes sociais, fazia pregações e vídeos de cultos apresentando-se como pastor itinerante, assassinou a esposa com várias facadas no dia do aniversário de 15 anos do próprio filho. Isso é, indiscutivelmente, um feminicídio, e não uma questão semântica. Em paralelo, tivemos recentemente o técnico de um time do Sul do país[5] que, além de apoiar um candidato de extrema-direita, defendeu publicamente seu auxiliar acusado de violência contra a mulher. Em momento algum ele mencionou a defesa ou a proteção às vítimas dessa violência, dando a entender, em sua concepção, que o homem tem o direito de agredir e até de tirar a vida de uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher.
A educação de qualidade trabalha com a igualdade de direitos, com o respeito à diversidade, com o poder do diálogo e com o humanismo que nos difere dos animais. Sendo assim, faz-se necessário observar que a misoginia e o machismo são a pura imbecilidade da sociedade. Infelizmente, existem até mesmo mulheres que defendem agressores ou a perda de direitos conquistados a duras penas.
Dito isso, o combate ao feminicídio se dará por meio da desconstrução das raízes culturais machistas antes que elas se transformem em violência física e/ou psicológica, fazendo com que os alunos tenham um melhor entendimento da Lei Maria da Penha. É fundamental fazer com que os discentes percebam que o homem não é dominante, tampouco a mulher é submissa, e que o fim de um relacionamento não é uma afronta à honra masculina, combatendo de vez a visão da mulher como “propriedade”.
[1]https://www.facebook.com/reel/1089770753840254
[2] https://www.instagram.com/reel/DeUrZ5-NWUE/
[3] https://www.instagram.com/reel/DeNCfLvpvW1/
[4] https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/10/12/quem-e-o-pastor-suspeito-de-matar-a-ex-mulher-a-facadas-na-festa-de-aniversario-do-filho.ghtml
https://www.metropoles.com/sao-paulo/pastor-mata-ex-esposa-festa-filho
[5] https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes-2026/renato-gaucho-defende-acusado-de-agredir-mulher-e-diz-sou-bolsonaro/