O Papel da Escola Contra a Ignorância Fabricada
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Que falta fazem o poder da leitura, um bom conhecimento de classe e até mesmo um entendimento racional dos conceitos trabalhados por Karl Marx na contemporaneidade brasileira. Somadas, essas três ferramentas ajudariam o cidadão a evitar as falácias de pessoas que vivem às custas dos sonhos alheios. Para isso, esses indivíduos se passam por coaches, mas vendem apenas ilusão, demagogia e frustração por meio de ideários de meritocracia — uma verdadeira lavagem cerebral com traços de um certo comtismo.
Esses profissionais reforçam o elitismo histórico e cultural ao desconsiderarem o conceito de mais-valia. Com isso, induzem as pessoas a abrirem mão de empregos amparados pelas Leis Trabalhistas para abraçarem o trabalho de plataformas, que oferece uma falsa ilusão de autonomia. Na realidade, entregadores, motoristas e freelancers vendem sua força de trabalho desprovidos de qualquer direito garantido por lei, além de arcarem com os custos de manutenção (como carro, moto e internet), enquanto os donos dos aplicativos retêm a maior parte do lucro.
Vale ressaltar que a maior força do trabalhador reside em sua união, articulada, muitas vezes, por meio de sindicatos. Entre as principais funções dessas entidades, destacam-se a defesa dos direitos da categoria, a negociação de salários, reajustes e benefícios, a fiscalização das condições de trabalho e o suporte jurídico. Em suma, tratam-se de garantias que deveriam ser inalienáveis, mas o trabalhador acaba convencido de que se tornará um empreendedor rico ao atuar em aplicativos.
Cabe pontuar que, em algumas situações, o elitismo impõe embates entre indivíduos da própria classe trabalhadora. Isso ocorre por meio de estratégias vis que, em vez de agregarem valor ao salário do empregado, oferecem prêmios que colocam em risco sua integridade e dignidade — como propor que busquem objetos no lixo em troca de um almoço em um restaurante específico, transformando o ambiente laboral em um verdadeiro reality show[1].
Essa dinâmica comportamental assemelha-se a um cenário em que um grupo de pessoas é colocado em um buraco e um prêmio é prometido ao primeiro que sair; no entanto, aquele que tenta subir é constantemente puxado de volta pelos demais. Sem cooperação, estabelece-se uma competição desleal baseada no famoso "se eu não ganhar, ele também não ganhará". Esse egoísmo sabota a coesão e inviabiliza a força política da classe trabalhadora por meio do "dividir para conquistar", estratégia amplamente explorada por Sun Tzu em A Arte da Guerra.
Outro aspecto a ser considerado é o consumismo e a ostentação associados às falácias desses coaches. Essa busca incessante visa apenas manter o indivíduo inserido em uma sociedade de consumo, sustentando uma mentira que oculta a frustração, a perda de sentido e o consequente vazio existencial.
Torna-se imperioso, portanto, que as escolas desenvolvam a consciência de classe em seus alunos, ofertando conteúdos que permitam compreender a geopolítica e sua complexidade. Concomitantemente, é de suma importância que os estudantes desenvolvam capacidade de discernimento para não se deixarem manipular por discursos meritocráticos, os quais fomentam a espoliação social oriunda de uma miséria intelectual — esta última, introjetada pela ignorância planejada e fabricada pelo elitismo.
[1] https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2026/07/01/caca-na-privada-e-r-20-mil-de-premio-como-e-reality-show-de-funcionarios-criado-por-viih-tube.ghtml