O Paradoxo da Marcha para Jesus
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Como ressaltado em meus livros Educação e a Não Neutralidade, publicado pela Editora Ícone em 2024; Educação: uma Questão de Politizar, publicado pela mesma editora em 2022; e Educação: um Ato Político, publicado pela Autografia em 2019, a educação é uma ação intencional e transformadora que tem como cerne o desenvolvimento de habilidades nos alunos, além de fomentar o discernimento. Quando esse discernimento falha, isso reflete, simplesmente, que a educação também está deficitária no desenvolvimento de habilidades cognitivas e comportamentais conhecidas como soft skills.
Habilidades como bom senso, juízo, critério e sensatez permitem ao aluno avaliar uma situação com clareza, agir com prudência e equilíbrio e trilhar o melhor caminho. O bom senso é a capacidade intuitiva de discernir a melhor conduta, evitando extremos. Nessa mesma linha, o juízo corresponde à capacidade mental de analisar, compreender e julgar com retidão, utilizando o tripé do que é certo, seguro e razoável. O critério estabelece padrões que possibilitam avaliar informações, tomar decisões adequadas e fazer escolhas seguras. Já a sensatez consiste na ação prudente e ponderada, associada à inteligência emocional, evitando a impulsividade.
Quando um movimento carece de parte dessas habilidades, ou até mesmo de todas elas, pode-se afirmar que a educação está deficitária no trabalho com o discernimento dos educandos, deixando-os suscetíveis à alienação por líderes religiosos mascarados pela hipocrisia e pelo falso moralismo.
Tomemos como exemplo a “Marcha para Jesus”, um movimento que deveria trabalhar os ensinamentos cristãos, mas que, devido à alienação de parte de seus participantes, transforma-se em um ato político marcado pela doutrinação e pela negação do pensamento crítico. Isso ocorre porque o evento se converte em um palco de aliciamento político, no qual se explicita, segundo essa perspectiva, um profundo desconhecimento da história e dos fatos contemporâneos.
Em uma “Marcha para Jesus”, é comum ver pessoas abraçadas à bandeira de um país cuja representatividade cristã é inferior a 2% da população. Nesse contexto, há relatos de atitudes hostis contra símbolos e representantes cristãos, justificadas por determinados grupos religiosos como forma de rejeição à idolatria. Soma-se a isso o fato de que esse país é acusado, por membros da ONU e em processos analisados pela Corte Internacional de Justiça (CIJ), de cometer graves violações de direitos humanos.
Trata-se, na visão de seus críticos, de um país acusado de usurpação de terras e de ações militares que resultam na morte de milhares de pessoas, muitas delas mulheres e crianças. Além disso, Jesus Cristo não é reconhecido como o Messias pela tradição religiosa predominante naquele país. É nesse ponto que se encontra o paradoxo, o que torna contraditório o apoio incondicional de grupos cristãos a esse Estado.
Situações como essa seriam uma prova de que a educação tem falhado em promover discernimento e pensamento crítico, uma vez que parte das pessoas envolvidas nesses movimentos estaria sujeita à alienação e à manipulação por lideranças religiosas. Diante disso, surge a indagação: a educação falhou em sua missão formativa ou tudo isso faz parte de uma estratégia para ampliar determinados currais eleitorais?