O Resgate da Docência: Entre o Legado de Freire e a Sombra do Extremismo
O Resgate da Docência: Entre o Legado de Freire e a Sombra do Extremismo
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
Fazendo uma análise da atual conjuntura, constato que tempos ruins nos aguardam. Cheguei a essa conclusão após assistir a um vídeo em que uma aluna do ensino fundamental[1] afirmava que qualquer pessoa que tenha estudado história pode perceber que a ditadura não foi "tudo isso que dizem". Ou seja, ela simplesmente desconhece a história, principalmente o sofrimento das pessoas que foram torturadas. Ela ignora os relatos de violências brutais, tais como choques elétricos nas genitálias e nos mamilos das mulheres, unhas arrancadas ou perfuradas, afogamentos e execuções. Desconhece também os "acidentes" forjados, como no caso de Anísio Teixeira — que se recusou a pedir asilo em outro país e teve seu corpo encontrado no poço de um elevador, sob a alegação militar de uma queda acidental — ou do jornalista Vladimir Herzog (1975), torturado e assassinado no DOI-CODI. Para encobrir esse homicídio, as autoridades forjaram a cena do crime e divulgaram-na como suicídio, com o inverossímil detalhe de que ele teria usado o cinto do próprio macacão da prisão.
Essa mesma aluna desconhece a dor das mães que tiveram seus filhos presos e que jamais encontraram seus corpos, bem como as duras palavras de um ex-presidente — hoje presidiário, notório simpatizante de torturas e de golpes — que, quando ainda era deputado federal, fixou um cartaz na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados. A peça trazia a imagem de um cachorro com um osso na boca e a frase: "Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro"[2].
O extremismo é um câncer que, ironicamente, não faz distinção de cor, religião, formação escolar ou sexo. É uma patologia social que faz com que mulheres se tornem machistas, a ponto de afirmarem que o homem tem o direito de mandá-las calar a boca e ir para a cozinha; mulheres que sustentam que o feminicídio é "apenas uma questão de semântica" e se posicionam contra a assistência social, omitindo o fato de que suas próprias mães usufruíram de políticas públicas durante anos. É esse mesmo câncer que faz com que um gay seja homofóbico, uma lésbica se declare nazista, e um negro seja racista e contrário às políticas públicas de ações afirmativas que beneficiam seu próprio povo.
Esta doença contamina cristãos, que colocam um torturador e golpista no lugar de Cristo. São as mesmas pessoas que se autointitulam patriotas, mas estão dispostas a entregar a nossa soberania aos Estados Unidos. Vemos médicos que se posicionam contra a ciência; pobres que defendem os ricos e são contra a taxação das grandes fortunas; e profissionais sob o regime CLT dispostos a abrir mão de direitos duramente conquistados em troca de uma jornada na qual receberão estritamente por horas trabalhadas — sem 13º salário, sem férias, sem descanso semanal remunerado, seguro-desemprego, licença-maternidade ou abono por atestados médicos. Afinal, sem o amparo legal, não haverá a suposta "negociação equilibrada entre patrão e empregado", mas sim uma imposição e a validação de condições análogas à escravidão.
Há também o servidor público que ataca os serviços públicos, defendendo o fim da estabilidade e a terceirização generalizada. O vírus do extremismo contagiou a todos, mas o cenário mais triste e paradoxal é ver o professor ser a favor de tudo isso. O profissional que deveria instigar a busca pelo conhecimento e a autonomia intelectual permitiu-se confabular com o nazifascismo.
Esses docentes são a vergonha da categoria e refletem nas urnas o seu próprio mau-caratismo. Dizem-se profissionais, mas são meros estultos portando um diploma que apenas titula uma atuação que vai do sofrível ao medíocre. Vivem e torcem pela desgraça dos socialmente vulneráveis. A esse tipo de gente, dedico o meu asco e o meu desprezo.
Que os verdadeiros professores não percam as esperanças. Que continuem instigando seus alunos a buscarem o discernimento, que tem como pedra angular o conhecimento balizado por uma educação de qualidade. Que possamos seguir o legado de grandes educadores como Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, entre tantos outros que, através do tempo, continuam a inspirar os autênticos educadores[3].
[1] https://www.facebook.com/reel/1456172259689473
[2]https://m.folha.uol.com.br/poder/2009/05/573209-pc-do-b-quer-cassar-bolsonaro-por-cartaz-contra-desaparecidos-deputado-diz-que-se-lixa.shtml
https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/noticias/201cquem-procura-osso-e-cachorro201d
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