Por que Preferimos uma Mentira Confortável? Entenda o Raciocínio Motivado
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
O ser humano sempre esteve entre a cruz e a espada, isto é, entre acreditar em uma verdade que contrapõe todo o seu pensar ou em uma mentira vista como reconfortante e apaziguadora. Isso ocorre porque a verdade e a mentira tornam-se seletivas sob o efeito do raciocínio motivado, um mecanismo que protege a identidade do indivíduo. Sob essa ótica, por mais provas que sejam apresentadas para refutar determinada situação, o status quo e a zona de conforto em momento algum são questionados.
O raciocínio motivado oferece, por exemplo, a crença conveniente de que "tudo é vontade de Deus", simplificando a complexidade do mundo em uma disputa maniqueísta entre o bem e o mal. Isso implica em afirmar que uma figura pública ou líder prosperou unicamente por ser "escolhido por Deus" ou "ungido pelo Espírito Santo" — justificativas místicas que mascaram leviandades e imoralidades praticadas, mas que, para os seus seguidores, ganham contornos romantizados e aceitáveis.
De acordo com o site Ética Animal[1], “o raciocínio motivado é um mecanismo de raciocínio pelo qual as pessoas acessam, constroem e avaliam discussões e dados de forma enviesada”, tudo para legitimar uma tomada de decisão baseada em uma conclusão confortável para si mesmas. Esse cenário é complementado por Rennó e Turgeon (2016) [2] ao salientarem que o raciocínio motivado se apoia em uma ambivalência atitudinal, na qual o processamento de informações é afetado pela intensidade das crenças dos cidadãos. Nesse ponto, prevalece a seletividade: eleitores mais convictos e seguros de uma ideia tendem a enviesar o uso da informação para fortalecer suas opiniões e atitudes preexistentes.
Esse tipo de raciocínio utiliza a interpretação moldada da informação como uma forma de acomodar dogmas anteriores, criando barreiras de defesa para que o indivíduo não perceba as falhas que, eventualmente, serão expostas. É interessante notar que o cérebro opera a partir de um resultado desejado, impedindo o sujeito de seguir as evidências de forma imparcial. Impera, assim, um excesso de tolerância com dados que convergem com nossa forma de pensar e uma profunda resistência a fatos que invalidem nossos ideais, o que dialoga diretamente com a tendência passiva do viés de confirmação.
Dito isso, encontramos na educação a principal profilaxia contra esse fenômeno, já que ela trabalha com o conhecimento, o discernimento e a autonomia do educando, agindo como um verdadeiro antídoto. O raciocínio motivado diverge frontalmente do método científico, pois este último ensina que toda hipótese deve ser submetida a testes rigorosos, além de exigir a identificação de fontes confiáveis, o reconhecimento de distorções midiáticas e a compreensão de como os algoritmos criam bolhas de informação.
Portanto, o enfrentamento do raciocínio motivado exige o estudo da filosofia, da lógica e o desenvolvimento da inteligência emocional. Afinal, as falácias argumentativas e os vieses cognitivos são armadilhas que subtraem o poder de discernimento; as disciplinas mencionadas, por outro lado, dão subsídios para que o conhecimento seja realmente crítico, integrador e desalienante