Problemas vividos de perto
Por Annyara Zorzeto
Estudantes simulam dia-a-dia de portadores de deficiência e vêem como a arquitetura deixa de lado esses cidadãos
As dificuldades de locomoção por que passam cadeirantes, os usuários de muletas e os cegos foram sentidas de perto por estudantes que visitaram, na manhã desta quarta-feira, dia 4, a campanha Cidadãos Especiais – Seja Um, desenvolvidas por alunos de publicidade e propaganda da Universidade de Brasília (UnB). Em cadeiras de rodas ou com vendas nos olhos e bengalas, os alunos simularam ter alguma deficiência física e percorreram parte do Instituto Central de Ciências (ICC) para realizar atividades simples que fazem parte do cotidiano, como ir ao banheiro ou beber água.
Os participantes da simulação foram divididos em dois grupos – azul e laranja – e cada um desempenhou uma atividade. O primeiro se dirigiu à secretaria da Faculdade de Comunicação para resolver um problema acadêmico e o segundo visitou os banheiros e os bebedouros da universidade.
A estudante de Publicidade da UnB Fernanda Resende fez parte do grupo azul e apontou uma série de dificuldades para realizar o “teste” numa cadeira de rodas. “O balcão da secretaria estava muito acima no nível da cadeira e o corredor muito estreito o que dificultava manobras”, explicou.
Já Arian Fuentes, aluna do 9º semestre de Pedagogia, fez parte do grupo laranja e viveu momentos como uma pessoa cega. “Se eu não estivesse no grupo, jamais teria chegado ao bebedouro. Eu andava preocupada com os ares condicionados, pois muitos ficam em lugares baixos e eu tinha medo de bater”, relatou. Ela notou, também, a importância dos banheiros estarem sempre limpos, pois os cego usam, muitas vezes, o tato para saber o local das coisas.
DESAFIOS – Na maioria das vezes, as rampas são vistas como a principal solução para um cadeirante se deslocar de um andar para o outro. No entanto, os alunos que tentaram usar as rampas da UnB constataram algo bem diferente. “É uma subida ruim porque a cadeira derrapa toda hora, não tem lugar para descansar e é muito inclinada. Tem de ter muita força”, criticou a estudante do 3º semestre de Letras Raquel Fernandes.
O cadeirante José Roberto Vieira, do 5º semestre de Ciências da Computação, também esteve na atividade e falou sobre a distância entre as rampas e as manobras necessárias para chegar ao subsolo. “Elas estão localizadas apenas nas extremidades e a distância média é de 400 a 500 metros. Às vezes, meus amigos me ajudam a descer pela escada, fazemos o chamado rappel”, contou Vieira.
ALTERNATIVAS – Os problemas encontrados em apenas uma manhã por esses estudantes dão uma pequena mostra do dia-a-dia dos portadores de necessidades especiais. De acordo com a arquiteta Eneida Bueno, integrante do PPNE, essas dificuldades são reflexo do descaso com que a realidade dessas pessoas foi tratada ao longo do tempo. “A acessibilidade começou a ser discutida pela arquitetura apenas no fim da década de 1990”, conta.
Ainda hoje, segundo ela, são poucas as escolas de arquitetos que oferecem disciplinas sobre essa área. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB, o tema é tratado de forma transversal. “Interpretamos que a acessibilidade diz respeito a todas as disciplinas, nas áreas de projetos arquitetônicos e de urbanísticos”, diz o diretor da faculdade, o professor Andrey Rosenthal.
Do ponto de vista prático, outra iniciativa importante foi a criação da Comissão Interna de Acessibilidade Total, criada por Rosenthal em seu primeiro dia depois da posse em março deste ano. “Consideramos que a faculdade deve dar o exemplo para as outras unidades”, avalia. O trabalho do grupo composto por funcionários, estudantes e professores é definir projetos e ações destinados à eliminação de barreiras nas dependências da faculdade, que tem salas e laboratórios no térreo, subsolo e mezanino da ala norte do ICC.
A iniciativa foi baseada no decreto-lei 5296, de 2 de dezembro de 2004, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade total no Brasil. Entre as diretrizes, estão o atendimento prioritário e diferenciado às pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida.
Para Eneida, outro forte aliado na tentativa de transformar a acessibilidade numa característica importante dos projetos arquitetônicos são os Conselhos Regionais de Engenharia e Arquitetura (Crea). Para serem aprovadas, essas plantas precisam se adequar a diversas regras. No entanto, alerta Eneida, os arquitetos continuam fazendo prédios, praças e outras edificações que não podem ser utilizadas por todos. Colaborou Ismália Afonso