Professor estuda responsabilidade social
Hoje em dia falar sobre responsabilidade social está na moda, mas é preciso tomar cuidado para não confundi-la com filantropia. Este foi um dos temas tratados na tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) pelo coordenador do curso de Ciências Contábeis da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unics), Irineu Afonso Frey.
Frey é formado em Ciência Contábeis e mestre em Desenvolvimento Regional pela própria Unisc. Ele conta que sua preocupação com o lado social das empresas começou na época do mestrado. "Quando eu ingressei no doutorado, inicialmente iria trabalhar com outro tema, mas o meu orientador achou mais interessante pegar um assunto que estivesse relacionado diretamente ao meio que eu já havia pesquisado. Como meu mestrado foi em desenvolvimento regional, as leituras que havia feito já envolviam questões sociais, acabei optando por responsabilidade social", explica o professor.
"Comecei a ler bastante sobre a questão da responsabilidade social e percebi que havia muitas coisas dúbias, principalmente a questão conceitual, já que a minha primeira meta era estudar a avaliação do ativo intangível da responsabilidade social empresarial. Porém, me dei conta de que não tinha um conceito de responsabilidade social consolidado suficiente para começar a construir um sistema de avaliação em cima dele", ressalta Frey.
Se não existe uma conceituação clara a respeito do que seja responsabilidade social, esse é um problema e foi nesse caminho que o professor começou seu trabalho. Segundo ele, as pessoas confundem filantropia com responsabilidade social, mas as duas questões são bem distintas. "Essa confusão é algo que deu para perceber de imediato. A grande diferença é que a filantropia é estanque, você dá e acaba o seu comprometimento. Já a responsabilidade social demanda gerenciamento. Foi desta forma que comecei a entrar na minha tese, que propõe justamente um modelo de gerenciamento da responsabilidade social empresarial", explica
Frey desenvolveu um modelo de Sistema de Gerenciamento da Responsabilidade Social Empresarial (Sigrese). Ele utiliza conceitos do Balanced Scorecard (BSC), que é uma ferramenta de gestão estratégica que ajuda a operacionalizar e tornar realidade o que foi idealizado. O objetivo é que os valores e crenças dos funcionários sejam inseridos na missão da organização e por conseqüência na estratégia de atuação empresarial. "Toda estratégia para ser gerenciada precisa de indicadores, foi então que desenvolvi junto com esse sistema um pacote de indicadores para o gerenciamento da responsabilidade social", explica Frey. "Utilizando os indicadores do BSC, a estratégia permeia todos os níveis da organização, desde a alta direção até o chão da fábrica.
Projetos sociais
O professor conta que participa da Comissão de Responsabilidade Social do Conselho Regional de Contabilidade do Rio Grande do Sul, também por isso o seu interesse por essa questão. "Ali a gente discute as questões da responsabilidade social empresarial e também propõe modelos para divulgação das informações sociais, que é o chamado balanço social", descreve.
Além disso, participa de projetos de pesquisa na própria Unisc nos quais está tentando identificar quais os indicadores utilizados pelas empresas do Vale do Rio Pardo (RS).
Responsabilidade social x Contadores
Pode até ser meio complicado imaginar uma ligação entre ações de responsabilidade social empresarial e Ciências Contábeis, mas o professor explica que existe sim. "Hoje tem uma série de oportunidades em nível de legislação federal, estadual e até municipal. E nossos profissionais (contadores) não estão utilizando, porque pensam que dá trabalho e freqüentemente terão que se explicar junto à Receita Federal por ter utilizado incentivo fiscal".
Para ele, é preciso despertar mais a classe contábil para esse lado de fazer o papel na área social, já que eles têm muito a contribuir, afinal quem vai fazer as opções para os incentivos fiscais é o contador, além de ter o domínio de toda a legislação fiscal e tributária. "Esse profissional pode sugerir e demonstrar que o empresário efetivamente vai ter um ganho optando pelos incentivos fiscais, como a Lei Rouanet ou Lei de Incentivo à Cultura", aconselha o professor.
Apesar de ter estudado por praticamente cinco anos seguidos no doutorado, Frey já pensa na próxima etapa. "Já estou pensando em termos de pós-doutorado, e acredito que já dê para fazer aquilo que eu queria no doutoramento, que seria a questão da mensuração efetiva da responsabilidade social", planeja.