Projeto pioneiro de professor da ECA visa o resgate das histórias em quadrinhos
Por Daniel Milazzo
Nosso personagem é Waldomiro Vergueiro, coordenador do Departamento de Biblioteconomia e Documentação (CBD) da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), que já há alguns anos trabalha na criação do Diretório das Histórias em Quadrinhos no Brasil.
“O projeto surgiu em 2002, a partir da dificuldade de se encontrar informações fidedignas a respeito da publicação de histórias em quadrinho no Brasil”. Ele conta que a primeira etapa do projeto é coletar dados sobre as publicações, tais como: ano de lançamento da primeira edição, por quanto tempo (durante qual período) ela existiu e qual era o personagem principal. Concluída essa fase, o passo seguinte consiste em identificar o conteúdo das publicações, saber mais sobre os personagens, os enredos bem como o artista que os criou.
Do diretório em si já existe um banco de dados com 2.300 títulos catalogados, além das imagens de cerca de 1.200 capas de publicações. Pretende-se com esse projeto possibilitar às pessoas, a partir de poucas informações, o resgate de um material com o qual elas tiveram algum contato e já não esperavam mais encontrá-lo. Além desse movimento de busca, um registro adequado de dados abre espaço para novas pesquisas nesta área que, segundo Vergueiro, tem atraído o interesse de muitos estudantes, tanto em nível de graduação como de mestrado e doutorado.
O professor acrescenta que a maior ambição do projeto é disponibilizar o material do diretório na internet, a fim de atingir a um público grande. “A partir disso, permite-se a outras pessoas fornecer materiais ainda não cadastrados, criando uma espécie de trabalho cooperativo”. É sem dúvida um projeto muito amplo. Vergueiro alega não ser possível estabelecer um prazo final para ele, já que também serão catalogadas as publicações recentes. E elas se renovam tão rapidamente como outros veículos de mídia, pois sua produção é intensa.
Parte da complexidade em traçar um panorama de tudo o que é e foi publicado no Brasil se deve a identificar títulos antigos, produtos não pertencentes a grandes grupos editoriais ou de tiragens limitadas, cujo nicho de circulação normalmente é restrito. Como é o caso das produções independentes, muito comuns no país, inclusive nas universidades. Estudantes da USP, por exemplo, possuem produções como Cogumelo (produzida por estudantes de arquitetura) e O Contínuo (produzida por estudantes de artes plásticas).
Atualmente não existe nenhum financiamento externo auxiliando a construção do diretório. Entre 2002 e 2004 a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) disponibilizou uma verba, utilizada basicamente na compra de equipamentos (computador, scanner, softwares). Os atuais empecilhos à continuidade do trabalho estão relacionados a falta de pessoal. Como os participantes do projeto não dispõem de nenhuma remuneração financeira, a mão-de-obra fica restrita a alunos dispostos a trabalhar voluntariamente, tornando a equipe pouco estável. Outra barreira está em encontrar alguém que domine a parte técnica necessária ao desenvolvimento do diretório. Mas independente dos obstáculos – para a alegria dos aficionados por quadrinhos, pesquisadores do tema e saudosistas de plantão – Vergueiro assegura que o projeto continua. “É uma questão de honra”, afirma.
Quadrinhos e cultura
As histórias em quadrinhos atingem um grande público, desde crianças que compram seu gibi na banca de jornal até os adultos leitores de tirinhas nos grandes jornais. De acordo com Waldomiro Vergueiro, essa categoria representa, sem dúvida, uma expressão viva de cultura, capaz de tratar variados temas de diversas formas. “Eles [os quadrinhos] refletem imediatamente o momento que está sendo vivido, Colocam o leitor em sintonia com o seu tempo, acompanhando as mudanças da sociedade”.
As produções também trazem aspectos culturais característicos do local onde foram produzidas. Brasil, Estados Unidos, Itália e Japão são exemplos de países com grande produção de quadrinhos, os quais (como qualquer forma de narrativa) transmitem valores a seu público. Talvez a produção industrial torne alguns desses aspectos culturais comuns a produções de lugares diferentes, mas cabe ao público desenvolver uma leitura crítica desse material, a fim de avaliar melhor sua mensagem.
Bem vindo à leitura!
Os gibis voltados para o público mais jovem visam principalmente o humor e devido a essa característica, são grandes fontes de estímulo ao hábito da leitura. Também é interessante que crianças tenham contato com os quadrinhos pois, como são utilizados diferentes tipos de linguagem simultaneamente (verbal, a partir dos textos, e visual, através das imagens), o cérebro humano trabalha com dois campos distintos, auxiliando, por exemplo, no desenvolvimento de capacidades cognitivas.
Quer saber mais sobre Histórias em Quadrinhos? Então clique nas capas dos gibis que ilustram essa reportagem ou visite o site do Núcleo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos da ECA.