Resiliência que Oprime, Subversão que Emancipa: O Papel Político da Educação
Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br
Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806
É sabido que um ser pensante é um ser perigoso para uma sociedade manipuladora, visto que o seu poder de discernimento nunca permitirá que ele seja controlado ou ludibriado pelo sistema. Esse discernimento mantém sempre acesa a chama da subversão e da busca pela autonomia intelectual, subtraindo tudo o que tende à manipulação e à opressão.
O poder de persuasão do sistema não está apenas no conhecimento; ele encontra-se no medo do desconhecido imposto pelas religiões — principalmente as pentecostais. Manifesta-se também na manipulação teológica quando se prega aos fiéis a total resiliência. Emprestado da física, o termo define a propriedade de um material de absorver um impacto e retornar à sua forma original sem se romper. Essa mesma linha de raciocínio é aplicada pela psicologia social para tratar a habilidade humana de enfrentar estressores — como lutos, crises e problemas de saúde — e se recompor emocionalmente. Ambas as vertentes compartilham a mesma origem na etimologia latina resilire, que significa “voltar atrás” ou “ricochetear”.
O fato é que muitas áreas se apropriaram dessa palavra, utilizando-a para validar a aceitação. Diante disso, cabe uma refutação, principalmente no campo da educação, dado que todo educar é um ato subversivo. Afinal, um cidadão educado tem a sua mente expandida e percebe a total incompletude do conhecimento, baseando a construção do seu próprio ser nessa constante busca intelectual.
Dito isso, nota-se que o termo resiliência, amplamente utilizado no discurso religioso, serve como ferramenta de controle das massas e até mesmo de aceitação da dominação do opressor. A educação vem justamente romper esse ciclo, permitindo que o cidadão pense por si mesmo e não terceirize o ato de pensar — ação essencial que nos diferencia dos demais animais.
Nietzsche sempre foi um pensador além de seu tempo. Embora criticado e por vezes rotulado como "anticristo", ele foi um dos filósofos mais racionais ao questionar o status quo da religião e da própria filosofia, instigando o indivíduo ao pensamento crítico e criticando posturas de mera resignação à suposta ordem natural das coisas.
Em nossa contemporaneidade, a resiliência é exaltada com frequência, sendo vendida como a virtude máxima para se atingir o sucesso. Todavia, como visto anteriormente, por estar relacionada à capacidade de absorver impactos e retornar ao estado original, a resiliência passou a ser uma palavra romantizada — um nome "gourmet" para a conformidade e até mesmo para a passividade gerada pela falta de sinapses cognitivas críticas.
Sendo assim, é nessa divergência que a educação intervém com todo o seu poder transformador, instigando no cidadão permissivo a subversão que o conhecimento oferece. Essa subversão não se traduz em desordem, mas sim na recusa legítima em aceitar o que é inaceitável.
É óbvio que a resiliência tem a sua importância na saúde mental, já que há coisas que não podemos mudar — principalmente quando se refere ao outro, visto que não podemos viver a vida alheia. Vale lembrar, contudo, que a verdadeira mudança social e pessoal implica a não aceitação do status quo.
A resiliência pode se tornar uma armadilha coletiva. Toda a culpa que deveria ser direcionada a um sistema social injusto acaba sendo absorvida pelo próprio indivíduo resiliente. Isso o faz acreditar que deve aceitar a situação como está, aguentando injustiças, exclusões e pressões desumanas sem reclamar. Dessa forma, o conceito deixa de ser sinônimo de superação e passa a ser apenas resignação e passividade mascaradas de virtude.
Existe uma máxima que diz: “se eles controlam o que você acredita, eles controlam o que você tolera”. Aí está a pedra angular da resiliência pregada pela religião, que, além de usar a fé como instrumento, utiliza-se da política para conduzir o cidadão à obediência cega, como uma ovelha. Não é por acaso que, em certas vertentes, os líderes são chamados de "pastores" que guiam um rebanho, muitas vezes de forma arbitrária.
Por fim, é importante salientar que resiliência e subversão não precisam ser palavras excludentes; elas devem se complementar. A resiliência sem subversão leva à perpetuação da opressão. Portanto, enquanto a resiliência ajuda o indivíduo a suportar os dias difíceis, a subversão o instiga a agir, a transformar o ambiente e a garantir que o problema não se repita.