31/08/2004

Saddam foi tirado também dos livros

Por Peyman Pejman - Bagdá

Enquanto seis milhões de meninas e meninos do Iraque se preparam para o início de seu segundo ano letivo sem a sombra de Saddam Hussein, as autoridades educacionais se preparam para enfrentar grandes desafios. No ano passado, acabava de ser concluída a invasão encabeçada pelos Estados Unidos que pôs fim ao regime de Saddam. As forças ocupantes estavam no país há seis meses. Muitas escolas sofreram danos da guerra ou dos saques que a sucederam. As famílias não sabiam se era seguro enviar seus filhos às escolas. Muitos dos que foram às aulas careceram de livros, pois as autoridades civis da ocupação norte-americana não os imprimiram sem a foto do antigo ditador. Por isso, muitos alunos usavam livros que tiveram arrancadas as fotografias de Saddam Hussein.

Alguns poucos foram reimpressos com ajuda da Organização das Nações Unidas sem referências ao deposto regime. As autoridades educacionais do flamante governo interino iraquiano prometeram para este ano novos livros. "Estamos fazendo livros para todos", disse à IPS Saad Ibrahim, funcionário encarregado das impressões. "Recebemos US$ 40 milhões do Banco Mundial e de países doadores, e assinamos muitos contratos com gráficas do Iraque e de países próximos, como Jordânia e Emirados Árabes Unidos", acrescentou.

O Ministério da Educação também deve ocupar-se dos prédios escolares. Oitenta por cento das 18 mil escolas do país devem receber algum tipo de reforma, disse à IPS o vice-ministro Hassanein Mualla. Os reparos necessários em 40% desses locais são "parciais", mas 30% devem sofrer uma reforma "completa", enquanto mais de mil precisam ser reconstruídas. Além disso, o Ministério pretende construir 4,5 mil novas escolas até 2007. Em algumas escolas existem cursos em três turnos, o que dificultará os trabalhos. Ainda não está claro quanto dinheiro será investido nessas obras nem se o ministério disporá de tais recursos.

As autoridades civis da ocupação encabeçada pelos Estados Unidos informaram no ano passado que já haviam gasto US$ 70 milhões nos centros educacionais. Mualla afirmou que o trabalho será dirigido pelo ministério. "Não queremos muitas partes fazendo a mesma tarefa, e queremos construtores iraquianos envolvidos desde o início", acrescentou. Em uma óbvia alusão à tarefa cumprida pela ocupação norte-americana, afirmou: "Em lugar de pintar um pouco aqui e mudar uma janela ali, é melhor fazer as coisas bem feitas". Porém, o trabalho principal vai além da reforma de edifícios e reimpressão de livros. "Nosso grande desafio é mudar os programas de educação. No ano passado foi formado um comitê nacional para examinar a questão, e creio que isso ainda vai consumir muitos anos.

A filosofia educacional deve mudar", disse Mualla. "Mudar a filosofia educacional" equivale, segundo muitos, a eliminar de todos os livros e programas qualquer referência a Saddam Hussein e ao seu partido, o Baath, que se manteve por mais de três décadas no poder. Para alguns que lutaram durante anos contra Saddam, a ideologia do Baath deve ser arrancada da memória do país. Para outros não menos oposicionistas ao antigo regime, a história deve ser conhecida pelas futuras gerações. "Até que os próprios iraquianos decidam isso, é difícil que eles mesmos comecem a reescrever seus livros. Até então, se limitarão a reimprimir os velhos", disse um funcionário ocidental que pediu para não ser identificado.

O problema da "filosofia educacional" deve ir além da "desbaathificação" dos livros e deve ser resolvida incentivando os estudantes a pensarem e deduzirem, e não apenas a memorizarem fatos, datas e números. Os funcionários da área de educação também procuram uma redistribuição dos recursos. Sob o governo de Saddam Hussein, a maioria das escolas, dos professores e do dinheiro era destinada a Bagdá e às grandes cidades. A distribuição precisa ser mais igual e justa, acrescentaram. Seja qual for o estado dos livros e dos prédios escolares, os educadores parecem mais felizes. Não é para menos: seus salários triplicaram desde a queda do regime de Saddam. (IPS/Envolverde)

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