21/09/2005

Seleção por competências

Por Lilian Burgardt

Selecionadores valorizam análise do que o candidato já produziu. Portfólio abre caminho para profissionais mostrarem como transformaram o conhecimento em bons resultados

Não é de hoje que os candidatos se deparam com processos de seleção difíceis, demorados e exigentes. Cada vez mais as empresas estão fechando o cerco para "pescar" apenas os melhores e mais preparados do mercado de trabalho. Com isso, reiventam a todo momento a forma de recrutar profissionais, prestando atenção em detalhes que anteriormente eram pouco observados. Neste aspecto, um recurso que tem ganhado espaço na hora da entrevista é o que profissionais de RH chamam de seleção por competências, em que se prioriza o que o candidato produziu com seu conhecimento adquirido em vez de valorizar apenas o seu nível de especialização.

Isso significa que, agora, além de claros, objetivos, concisos e muito bem direcionados, os currículos devem ter uma função a mais: a de "vender o peixe" chamando atenção dos recrutadores para projetos especiais e soluções desenhadas pelos profissionais que trouxeram resultados positivos para as empresas. Trata-se de uma nova ordem na hora da seleção. "Ao invés de avaliar a quantidade e qualidade de cursos, deve-se observar para que esta ferramenta foi utilizada e se ela foi bem empregada", explica a consultora de Recursos Humanos da Gelre, Gerusa Mengarda.

Segundo Gerusa, perante o novo modelo de seleção por competências, os recrutadores avaliam os candidatos observando três critérios importantes, são eles: contexto, ação e resultado. "O candidato deve escrever a situação em que se encontrava, a alternativa que utilizou para resolver a questão e o resultado obtido a partir disso", explica. Assim, segundo a consultora, é possível identificar se a solução tomada pelo profissional realmente foi a melhor alternativa para a empresa.

Além disso, a partir deste processo, Gerusa diz acreditar ser mais fácil de identificar os espertinhos ou os marqueteiros de plantão, que "vendem bem seu peixe" mesmo quando a realidade da situação que viveram na empresa foi bem diferente. "Por meio deste modelo, é fácil observar se o candidato soube empregar o conhecimento adquirido trazendo uma nova solução para os problemas da companhia ou se, simplesmente, limitou-se ao que estava acostumado a fazer em sua rotina de trabalho", destaca. Este tipo de avaliação, na opinião da consultora, segue uma tendência forte que outras áreas como Marketing, por exemplo, já vinham trabalhando por meio da utilização do portifólio como ferramenta no processo de seleção.

Para Gerusa, pelo portfólio, peças publicitárias, campanhas e outros materiais que compõem o currículo de um profissional de Marketing, por exemplo, são valorizados à medida que o recrutador conhece o perfil de trabalho do profissional e identifica seu estilo quando vê o que foi produzido por ele. A partir daí, o recrutador também saberá se a identidade de trabalho do profissional está alinhada com as necessidades da empresa ou se está dando um tiro no escuro na hora da contratação.

Como fazer um bom portfólio?

Especialmente utilizado por profissionais de desenho industrial, jornalismo, webdesign e fotografia, entre outras áreas, o portfólio abre o caminho para seleção por competências e já é uma tendência muito forte em relação aos novos modelos de seleção no mercado de trabalho. Empresas que trabalham diretamente ligadas à criação, por exemplo, já encaram o portifólio como peça fundamental para a entrevista.

De acordo com o presidente da agência de publicidade Le Pera, Marcos Le Pera, é pelo portfólio que você identifica um profissional criativo, ousado, que se encaixe com o perfil da agência. Ao mesmo tempo, a partir desta peça, também é possível descobrir características pessoais que influenciam diretamente em sua rotina profissional seja ela individual ou em equipe.

É importante lembrar que a primeira impressão é a que fica. Por isso, no momento de apresentar um portfólio, certificar-se de que ele está agindo como seu cartão de visitas, e não o inverso, é fundamental. "Organização vem em primeiro lugar. Portfólios sujos, rasgados, mal-cheirosos que transmitam uma imagem de desleixo eu simplesmente nem olho", revela Le Pera.

Outro ponto interessante levado em conta pelo publicitário é o modelo de apresentação do portfólio. Curiosamente, embora o avanço da tecnologia permita o desenvolvimento dos mais diversos portfólios digitais, vale lembrar que um bom material impresso continua tendo uma excelente visibilidade. Em especial quando abrigam materiais veiculados em revistas ou jornais. "Salvo os trabalhos digitais veiculados para mídias especiais, continuo preferindo os portfólios em formato de pastas para visualizar os impressos. Desta forma é possível avaliar a qualidade do material utilizado, além da criatividade ali presente", revela.

Criatividade foi justamente a palavra-chave do portfólio do publicitário Alessandro Novo. A iniciativa de expôr seus trabalhos mais brilhantes, tivessem sido ou não premiados e veiculados, teve tanto sucesso que lhe rendeu o cargo de diretor de criação da Le Pera. Para ele, que também considera o portfólio como cartão de visitas, não importa a relevância do trabalho, às vezes um pequena idéia se torna uma grande oportunidade de mostrar seu talento, basta agarrar-se à esta chance e dar asas à imaginação. "Meu portfólio contêm as mais diversas peças que já desenvolvi, desde filmes como material para mídia impressa. Cada um com seu valor e espaço, respeitando a criatividade como elemento base", destaca.

Essa valorização do portfólio tem ganho tanto espaço que a idéia vem sendo incentivada ainda na graduação, momento em que os estudantes estão preparando suas primeiras peças. A professora do curso de Fotografia do SENAC, Livía Alipo, por exemplo, incentiva desde cedo os jovens a guardarem seu material montando uma espécie de linha do tempo para contar a história de sua produção. "Um bom portfólio de fotografia deve estar alinhado com os acontecimentos, sejam eles do cotidiano ou não", conta.

Para ela, o bom fotógrafo, que pretende guardar um portfólio interessante, deve estar antenado com os últimos acontecimentos e preparar um clique que remeta a isso. Além disso, seu material deve ter uma marca individual, o traço exclusivo que irá diferenciá-lo dos demais. "O portfólio não pode ser extremamente técnico, deve ter a marca registrada do fotógrafo e, então, dentro dessa marca, a presença do conhecimento técnico que está muito mais ligada ao aprendizado do que ao feelling do profissional", encerra.

Dicas para um bom portfólio

* Organização e cuidado fazem a diferença: mantenha o portfólio em bom estado para que ele sirva como seu cartão de visitas;
* Crie sua marca registrada, aquela que irá deferenciá-lo dos demais profissionais;
* Criatividade e ousadia contam pontos a favor, especialmente na área de criação,
* Fuja do óbvio. Seu conhecimento técnico deve ser exposto como parte de um trabalho inovador

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