11/03/2026

Síndrome de Estocolmo ou Falta de Consciência de Classe

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

As ciências humanas, como a filosofia e a sociologia, permitem-nos permear a seara do entendimento dos problemas sociais e também do sentido da vida — não necessariamente atrelada à manipulação tendenciosa de uma religião defendida por hipócritas com falso moralismo, mas pelo sentido de sua existência em sociedade. Isso remete às falas de José Saramago, quando disse ser necessário se afastar da ilha para enxergá-la.

Nas falas deste escritor português, ganhador de vários prêmios como o Nobel em 1998, está elucidada a importância de percebermos a nossa atual conjuntura. Isto é, às vezes estamos atrelados a um problema e não conseguimos enxergá-lo sem que consigamos nos afastar de sua causa. Em outras palavras, o distanciamento permite uma visão mais clara da situação; mas, para isso, faz-se necessário um autoconhecimento e a percepção da realidade que nos causa dor e nos subtrai o discernimento e, em concomitância, a própria dignidade.

Ao nos afastarmos da ilha, aproveitando os ventos soprantes da filosofia e da sociologia em nossas velas, teremos uma nova forma de compreender o problema social que estamos enfrentando e questionar: este problema está relacionado à Síndrome de Estocolmo ou é uma gritante falta de consciência de classe?

O fato é que, apesar de ambos terem conceitos distintos, em uma análise mais aprofundada, um pode influenciar o outro, desde que se tenha o entendimento destes conceitos. A Síndrome de Estocolmo é um fenômeno psicológico no qual a vítima de um sequestro ou de algum tipo de violência desenvolve laços afetivos e até mesmo certa empatia pelo abusador; na psicologia, isso é visto como um mecanismo de defesa. Quanto à falta de consciência de classe, esta tem forte relação com a incapacidade de um grupo social reconhecer seus interesses e sua posição na estrutura social, a ponto de defender as classes dominantes que subjugam este grupo e exploram sua mais-valia.

O triste é que, nos casos supracitados, as pessoas defendem os interesses dos opressores acreditando compartilhar os mesmos objetivos. Isso explicita a dependência social e, inclusive, a gratidão pelo opressor. Ou seja: a pessoa defende quem vai negligenciar seus direitos — e até mesmo subtraí-los —, enquanto as pessoas que lutam para resguardar tais direitos são vistas como inimigas. Todavia, esta é apenas uma forma de ecoar as imbecilidades proferidas pelos opressores.

É interessante perceber que, por mais que a educação tente resolver este problema social, lhe são subtraídos recursos para que isso aconteça. Estrategicamente, a educação pública é estigmatizada como "doutrinadora", embora nunca vá existir uma educação neutra.

Faz-se mister perceber que, tanto na Síndrome de Estocolmo quanto na falta de consciência de classe, o sistema trabalhará para impedir que o oprimido desenvolva consciência, já que o cerne para a perpetuação do poder está em manter o cidadão totalmente docilizado, vendo a exploração como algo natural, enquanto nutre a vã esperança de que um dia o opressor se solidarizará com a realidade do oprimido.

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