11/08/2010

Tão longe, tão perto

Para um estudante que mora em cidade grande, compreender a informação que o desmatamento na Amazônia caiu pela metade em 2010, mas mesmo assim foi derrubada uma área do tamanho da cidade de São Paulo (SP), pode ser tão complexo quanto a leitura de um livro de Nicolai Gogol em russo original.

As desconexão com a realidade do estudante, suas preocupações e anseios, dilui a compreensão da informação.  A metáfora pode até ser forte, mas fora de contexto. A educação formal até bem pouco tempo atrás insistia em jogar sua incompetência nas costas do estudante – hoje é evidente o anacronismo do modelo escolar.

A ecologia – quando resumida à burocracia do giz e lousa – torna-se um exemplo icônico desse descompasso entre vida e estudo.  Foi preciso um bom comunicador, no caso o norte-americano Al Gore, para que o tema entrasse na pauta da sociedade com a força merecida.

Foi tentando estreitar essa relação do jovem urbano com a floresta e a preservação ambiental que os educadores Edson Grandisoli e Silvio Marchini resolveram montar uma escola no meio da floresta. A Escola da Amazônia é a ponta de uma fundação que preserva uma área do tamanho de Manhattan, em Alta Floresta (MT).

Anualmente vinte jovens do ensino médio de São Paulo reservam suas férias para aprender – numa rotina de estudos bem puxada – no meio da mata. Trilhas, coletas de informação e aulas in loco dão subsídios para que cada um deles desenvolva, em uma semana, uma pesquisa científica completa sobre algum aspecto daquele ecossistema.  Para completar, produzem comunicação para um blog especial.

A atmosfera da Escola da Amazônia é infantil, no melhor dos sentidos. Cada estudante redescobre  o que significa uma Floresta Amazônica e não o que dizem que ela significa. Há encantamento. O ápice da experiência é a troca de conhecimento com estudantes das comunidades locais – um encontro de duas culturas completamente complementares.

O principal mérito do projeto é que a educação é “ vivida”  para ser compreendida – como as crianças nos primeiros anos de vida que realizam descobertas experimentando e vivenciando.   Até um urbanóide mais velho, como eu, conseguiu perceber melhor que a floresta está presente, de alguma maneira, na selva de concreto – a experiência fornece instrumentos para se fazer essa conexão de significado.

Para o ensino médio, o Enem, que embora tenha perdido prestígio no ano passado, tem o mérito garantir uma medida “ não-bancária” da informação compreendida pelo aluno – na forma da contextualização da informação, as habilidades e competências.

O fato é que a Floresta Amazônica não tem significado por si só. Nem Nicolai Gogol, o escritor russo. O papel da educação é fazer compreender que sem a floresta, pode não haver vida na cidade; e que “O Inspetor Geral” , obra de Gogol, é um dos retratos mais atuais da comédia da vida política.

Para saber mais: http://www.escoladaamazonia.org

(Envolverde/Aprendiz)

 
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