23/09/2005

Troca de saberes

Na corrida por um lugar nas universidades públicas brasileiras há competidores em vantagem. São aqueles jovens de renda elevada, que tiveram acesso a escolas privadas, bons livros e apoio financeiro dos pais. Correndo por fora estão os jovens da periferia, com baixa renda familiar mensal e os pais, normalmente, sem ensino médio. Na tentativa de reduzir essa disparidade, a Universidade de Brasília (UnB) lançou na manhã desta quarta-feira (21), o programa de extensão Conexões de Saberes. A iniciativa se propõe a incentivar e a apoiar estudantes da periferia do Distrito Federal para entrarem na UnB.

O projeto, criado no início de 2005 pelo Ministério da Educação (MEC), já funciona em 14 universidades federais. Uma das novidades importantes é o envolvimento dos atuais universitários de baixa renda como mediadores dessa aproximação. Na UnB, por exemplo, 25 bolsistas já se reúnem para elaborar um plano de trabalho. Todos eles estudaram, predominantemente, em escolas públicas e moram fora do Plano Piloto.

Para o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do MEC, Ricardo Henriques, não basta o jovem estar na universidade, ele precisa influenciar seu meio. “Esse é um instrumento de intervenção para enfrentarmos a desigualdade social, racial e de poder no país. Os bolsistas precisam ser atores principais nesse cenário”, afirma.

FORA DO CAMPUS – A missão desses alunos é mostrar, inicialmente, para jovens de Ceilândia, Santa Maria, Novo Gama, Valparaízo e Recanto das Emas que é viável prestar vestibular para a UnB. A professora Leila Chalub, uma das coordenadoras do programa, conta que, hoje em dia, menos de 2% dos moradores das cidades distantes do Plano Piloto se arriscam a fazer a prova de seleção da universidade. “Além de convencê-los a isso, é preciso facilitar o caminho, por exemplo, com ajuda nos estudos de preparação para o vestibular”, explica.

Para o vice-reitor da UnB, Timothy Mulholland, o projeto complementa o quadro de políticas da universidade para democratização do ensino superior. “Assim como o programa de cotas, essa é uma ação que busca escancarar a universidade pública para a sociedade e permitir, dessa forma, a ascensão social”, declara.

BENEFÍCIO MÚTUO – Os alunos da UnB receberão uma bolsa mensal de R$ 241,00, o que para muitos é a garantia de permanência na universidade. “Não é só uma ajuda, com esse dinheiro eu vou me sustentar aqui”, conta Rafael Pereira Pinto, 19 anos, estudante do 4° semestre de Engenharia Florestal. Esse recurso servirá para custear lanches no campus, cópias de materiais e compras de livros. Junto à colega de curso e também bolsista, Raiane de Melo Viana, 19 anos, ele lembra da época em que estudava na zona rural do norte de Minas Gerais (MG): “Eram sete quilômetros de distância da escola e eu ia todos os dias para aula de jegue.”.

Raiane não teve uma infância com menos dificuldades. Entre os três e seis anos, morava com a mãe numa carvoaria, também em Minas Gerais. A mãe, carvoeira, mandou que ela fosse morar com avós e tios em Paracatu (MG) para estudar. Aprovada na primeira tentativa de vestibular, hoje mora com uma família em Luziânia. É a primeira, das oito irmãs a chegar ao ensino superior.

São essas experiências e saberes que, segundo o coordenador nacional do programa, Jailson de Souza e Silva, precisam ser reconhecidas e valorizadas. “Na população a ser trabalhada existe muita riqueza e muito conhecimento. A relação deve ser estabelecida horizontalmente, sem arrogância do lado acadêmico”, ressalta.

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