05/10/2026

Um Passado pela Frente

Por Wolmer Ricardo Tavares – Mestre em Educação e Sociedade, Escritor, Palestrante e Docente – http://www.wolmer.pro.br

Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/9745921265767806

 

Uma caricatura de Millôr Fernandes retrata bem a realidade do povo brasileiro nesta última eleição. O desenho consiste em um autorretrato no qual o artista manipula a areia do tempo, representando uma ampulheta. Junto à arte, destaca-se uma de suas frases mais célebres e reflexivas — que, embora difícil de ser interpretada por muitos no momento atual, fala por si só: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.

Essa ironia nos remete a um passado que tende a vir à tona. A força da máxima "um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la", atribuída ao filósofo e político irlandês Edmund Burke, faz total sentido ao analisarmos a atual conjuntura. Uma reflexão similar foi feita por George Santayana ao afirmar que “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo". Ambos estão cobertos de razão.

Estamos na iminência de flertar com um passado em que o Brasil abraçou o neofascismo e, agora, tende a reatar essa união. É preciso lembrar que esse período custou a dignidade e a vida da população mais vulnerável. Foram mais de 700 mil mortes na pandemia, das quais mais de 400 mil poderiam ter sido evitadas, visto que projeções matemáticas apontam o impacto do atraso na compra dos imunizantes da Pfizer e da CoronaVac. A tragédia foi agravada porque o governo rejeitou uma coordenação centralizada e recusou medidas sanitárias baseadas na média mundial, como o estímulo ao uso de máscaras e campanhas de isolamento social[1].

Foi um período turbulento em diversas áreas, marcado por reduções orçamentárias severas, contingenciamentos e o desmantelamento de programas sociais para cobrir um dos maiores esquemas de corrupção do país: o orçamento secreto. Esse mecanismo resultou no corte de 70% das verbas do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), impactando fortemente o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), o que afetou diretamente o funcionamento de mais de 5.500 unidades.

Outras ações danosas sufocaram a população em vulnerabilidade social, como o corte de 59% no programa Farmácia Popular e a asfixia da Agricultura Familiar, que sofreu uma queda de 97,4% em seus recursos. O retrocesso fez o Brasil retornar ao Mapa da Fome: em 2022[2], cerca de 33,1 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar grave.

Na educação e na ciência, o país atingiu os patamares de investimento mais baixos desde o ano 2000, com ministros que ora mentiam em seus currículos, ora protagonizavam balcões de negócios e esquemas de corrupção que ficaram conhecidos como o "bolsolão do MEC".

Ao analisarmos o nosso histórico político, percebemos que a situação pode se agravar. Este parece ser o preço da democracia em um país cujo povo, em grande parte, carece de consciência política e de classe. Uma parcela do eleitorado vota em certas lideranças por enxergar nelas o seu próprio reflexo e desvios de caráter, mostrando que, para alguns, vale tudo para alcançar o que se almeja — tendo a mentira e o deepfake como principais balizadores.

O resultado desta última eleição sintetiza esse cenário: vimos trabalhadores sob o regime da CLT votando contra seus próprios direitos conquistados, preferindo a manutenção da escala 6x1 em detrimento da 5x2. Testemunhamos pessoas pretas votando contra si mesmas. Enfim, um total paradoxo que reflete uma profunda alienação somada a uma espécie de imbecilidade coletiva.

Como bem observou Maquiavel em sua obra O Príncipe, a mentira, a fraude e a dissimulação são ferramentas estratégicas e essenciais tanto para a conquista quanto para a manutenção do poder político.

 

[1]https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/06/24/pesquisas-apontam-que-400-mil-mortes-poderiam-ser-evitadas-governistas-questionam

[2] https://g1.globo.com/globonews/noticia/2023/05/16/fome-atingiu-29-milhoes-de-brasileiros-no-fim-do-governo-bolsonaro-diz-estudo.ghtml

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