16/09/2005

Um programa para crianças com dislexia

No início do segundo semestre do ano letivo, a professora de Lucas anunciara que dificilmente ele estaria apto a prosseguir na terceira série do Ensino Fundamental. Aos nove anos de idade, ele repetiu duas vezes a primeira série e já estava com a segunda comprometida. O diagnóstico não estava fechado, pois seriam necessárias diversas avaliações por profissionais da área, mas era bem possível que Lucas sofresse de uma disfunção neurológica que acomete de 5 a 10% da população brasileira infantil: a dislexia do desenvolvimento. A característica principal do distúrbio é basicamente a dificuldade de aprendizagem na leitura e na escrita, pois a criança não consegue converter o som que recebe para a escrita. “É uma disfunção que não se cura com medicamentos. A intervenção é clínica e são necessárias diversas sessões terapêuticas. Muitos pais procuravam o Hospital das Clínicas da Unicamp (HC) para avaliação e, após o diagnóstico, não sabiam como proceder. O tratamento é oferecido apenas na esfera particular e isso me angustiava”, explica a fonoaudióloga Cíntia Alves Salgado.

A partir de sua experiência, na prestação de serviços no Ambulatório de Neuro – Dificuldades de Aprendizagem do Hospital das Clínicas, Cíntia decidiu adaptar um programa espanhol de remediação fonológica em escolares com dislexia. Com o apoio dos profissionais do Ambulatório e por meio de avaliação da equipe interdisciplinar, a fonoaudióloga tratou clinicamente 12 crianças com a disfunção. “Os resultados foram extremamente positivos”, comemora. A leitura com compreensão das crianças melhorou muito, e aqueles escolares que, no início, conseguiam apenas escrever palavras isoladas, passaram a redigir frases inteiras.

Para controlar melhor as avaliações, Cíntia também aplicou a metodologia em escolares sem dificuldade de aprendizagem. Durante cinco meses, uma vez por semana, a fonoaudióloga desenvolveu atividades com as crianças. “No pré-teste, os grupos tiveram resultados das avaliações diferentes. Como era de se esperar, o grupo de crianças com disfunção teve desempenho inferior. Mas, quando foram aplicados os testes ao final das sessões terapêuticas, o desempenho dos dois foi semelhante”, avalia Cíntia.

A idéia é que o trabalho gratuito implantado pelo Ambulatório seja expandido. “Existem muitos outros casos diagnosticados e que, por dificuldades financeiras, acabam ficando sem tratamento”, esclarece. O relato de sua experiência, bem como os resultados alcançados constam de sua dissertação de mestrado “Programa de remediação fonológica em escolares com dislexia do desenvolvimento”, apresentada na Faculdade de Ciências Médicas, sob orientação da professora Simone Aparecida Capellini.

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