27/09/2005

UNE ontem e hoje

União Nacional dos Estudantes no centro do debate: a entidade tem hoje a mesma representatividade e importância que tinha no passado?

A UNE (União Nacional dos Estudantes), principal entidade representativa dos universitários, foi fundada em agosto de 1937. Ao longo de seus 68 anos de história, marcou presença nos principais acontecimentos políticos, culturais e educacionais do país. Dentre eles, lutou pelo fim da ditadura do Estado Novo e do regime militar, pela erradicação do analfabetismo, contra o aumento abusivo das passagens no transporte público e foi uma das principais frentes de combate ao avanço das forças nazifascistas no país durante a Segunda Guerra Mundial.

E como será que está a situação da UNE nos dias de hoje? Ela continua sendo tão representativa e lutando por causas políticas, sociais e culturais que afetam a vida dos estudantes? As opiniões divergem. O principal papel da entidade é organizar os estudantes brasileiros e tentar contribuir para que se possa ter uma elevação do grau de consciência desses estudantes no sentido de possibilitar a eles um maior esclarecimento e possibilidades de escolha e organização.

Para o diretor de Cultura da UNE, Tiago Alves, a entidade tenta organizar os estudantes em outros espaços que não os tradicionais do movimento estudantil. "A UNE hoje tem um programa que se chama CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte) e que administra uma série de centros culturais espalhados pelo Brasil. Também realizamos junto com a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) anualmente um encontro de jovens cientistas, que é um espaço de organização dos jovens e de debate sobre a Ciência e Tecnologia. Estamos criando, cada vez mais, espaços de participação para que o jovem possa se organizar no movimento estudantil e trave um debate que possibilite elevar seu grau de consciência", aponta.

A fisioterapeuta Roberta Barbinato lutou pela fundação do CA (Centro Acadêmico) de Fisioterapia e do DCE (Diretório Central dos Estudantes) do Uniararas (Centro Universitário Hermínio Ometto) quando era estudante. Ela diz acreditar que a UNE é a única entidade que verdadeiramente representa os estudantes em nível nacional. "Porém, existe um distanciamento muito grande da UNE propriamente dita e das entidades de base, que são os CAs e DAs das faculdades. A gente sentia esse distanciamento que existe até hoje na UNE e é causado principalmente pela UJS (União da Juventude Socialista), que é quem está na diretoria majoritária", explica Roberta.

Universitários apáticos?

O Brasil sofreu, principalmente durante as décadas de 80 e 90, um bombardeio ideológico muito forte, no sentido de que os projetos coletivos não seriam mais possíveis, de que as preocupações dos jovens deveriam ser pautadas apenas pelo seu emprego, segundo avalia Tiago Alves. Em virtude desse bombardeio ideológico, o dirigente estudantil avalia que parcela da juventude se pautou nesta realidade e o engajamento começou a ter índices de participação reduzidos. "No entanto, depois do último período eleitoral, nós tivemos um aumento na participação dos jovens estudantes universitários. E a nossa expectativa é que, à medida em que formos conseguindo derrubar essa barreira, é meio que um cordão sanitário contra o projeto coletivo: à medida em que a gente for rompendo com isso, a participação vai aumentar", acredita Alves.

O movimento estudantil passa por uma crise que não é só da UNE, mas dos movimentos em si, por conta da atual conjuntura, afirma Ueltom Lima Gomes, primeiro diretor de Relações Internacionais da UNE, membro da oposição à ala majoritária que dirige a entidade. Estamos em um momento onde o modelo neoliberal é muito forte e isso faz com que as pessoas percam um pouco do senso coletivo das coisas e fiquem cada vez mais individualistas, acrescenta Gomes. Os movimentos sociais estão em refluxo, as organizações coletivas estão fragilizadas e o movimento estudantil não está fora disso, conclui.

"Agora, fora essa crise geral, tem a crise do próprio movimento, que a gente acha que a direção majoritária da UNE não ajuda a gente a sair. Por quê? Porque a UNE poderia ser muito mais democrática, ter muito mais fóruns de participação dos estudantes, e a direção majoritária, de certa forma, impede isso. Ela mantém a UNE com uma estrutura muito verticalizada, de cima para baixo, muito burocratizada", acrescenta Ueltom Gomes.

Para se ter uma idéia de como a UNE sempre foi engajada, a partir de 1964, logo que foi destituído o governo legal, teve início uma operação de desmonte e enfraquecimento do movimento estudantil. A sede da UNE, que ficava na praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi invadida, saqueada e queimada. Os militares retiraram a representatividade da UNE por meio da Lei Suplicy de Lacerda e dos decretos 228 e 477 e a entidade passou a atuar na ilegalidade. O AI-5 (Ato Institucional nº 5) foi instituído em 1968 e muitas das lideranças juvenis mortas, torturadas ou exiladas.

Hoje em dia, os jovens estão muito alienados ao que acontece a seu redor, considera Roberta Barbinato. Vemos estudantes despolitizados e que não se unem em torno de um ideal comum, indica. "Nos congressos da UNE, os delegados que têm poder de deliberar sobre o movimento estudantil são, na verdade, totalmente despolitizados. E isso se confirmou no último Coneg, em Goiânia, um congresso esvaziado de estudantes, pouco politizado, que não teve discussões e na hora da votação, todas as propostas aprovadas", conta, inconformada, Roberta.

Para Roberta, a situação real da universidade, os assuntos do seu dia-a-dia, não são levados em conta nas discussões da entidade. Algumas outras questões, como a redução da mensalidade, são uma bandeira histórica do movimento e tem todo o apoio, já que são feitas mobilizações e manifestações nesse sentido. "Do problema real da universidade, a UNE está meio distante: dividir os dirigentes por Estado e cidade; estar mesmo dialogando com a base, com os CAs, com o pessoal que tem dificuldade de estar montando. É muito complicado", completa a fisioterapeuta.

O caso do anteprojeto da reforma universitária é um exemplo, afirma Gomes. Para ele, desde o início das discussões a UNE foi a favor do projeto e não tomou uma posição mais questionadora na ânsia de dar apoio ao governo Lula, porém, acabou fugindo dos princípios de lutar pelos direitos e dar apoio aos estudantes.

"A UNE não se posicionou do jeito que tinha de se posicionar. Continuou defendendo a reforma universitária, assinou embaixo o programa do governo. Agora está com uma posição mais firme. Eles tiraram aquela defesa incondicional e começaram a reavaliar. É bom que a direção majoritária tenha percebido que é preciso fazer mais luta. Mas passou do tempo, se eles tivessem feito luta antes... Naquela ânsia de defender incondicionalmente o governo, entramos em um patamar de condição de fazer luta muito ruim. E afastou, de certa forma, a UNE da realidade dos estudantes", contesta Gomes.

Gomes ainda cita a questão das universidades públicas: "houve épocas em que algumas não tinham sequer água e luz, faltavam professores, assistência estudantil e onde estava a UNE nessa história toda? Estava defendendo a reforma, que ampliava as universidades privadas... A UNE errou nesse último período, mas errou por conta da direção majoritária", diz.

Como melhorar?

Em 1980, houve a reconstrução da UNE, com a entidade voltando a organizar e desenvolver atividades regulares. Com o prestígio recuperado, o movimento estudantil, representado pela UNE e pela UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), foi o primeiro a levantar a bandeira pela ética na política em 1992, durante as manifestações pró-impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Milhares de estudantes "caras-pintadas" influenciaram a opinião pública com a campanha "Fora Collor" e pressionaram o ex-presidente à renúncia.

O diretor de cultura da UNE conta que em 1999 foi promovida uma grande transformação no movimento estudantil na qual surgiu a idéia de que era necessário ampliá-lo para representar cada vez mais e melhor os estudantes brasileiros. "Então, surgiu a idéia de construir atividades relacionadas à cultura, esporte, ciência e tecnologia. Por isso estamos no caminho certo, temos que ganhar mais gente para esse projeto de movimento estudantil, mas acho que isso já está em curso no Brasil", observa Alves.

Mas Roberta e Gomes afirmam acreditar que há muito a fazer para que a UNE volte a ser uma entidade tão representativa quanto nos anos 90. Para o membro da oposição da UNE, há necessidade de se derrotar essa direção majoritária. "Por mais que a gente leve um programa para os congressos que democratize a comunicação da UNE, amplie a revista, fazendo com que mais pessoas possam escrever, podendo ter opinião de todas as forças políticas, do estudante comum, por mais que a gente leve isso, se o Congresso for extremamente burocratizado e fechado, não conseguimos disputar de verdade as propostas, porque é difícil demais. Há necessidade de reestruturar", defende.

Conscientização. Essa é a palavra chave para a mudança, defende Roberta Barbinato. As políticas da UNE só serão mudadas a partir do momento em que os estudantes que estiverem nos encontros forem politizados, diz. "É um papel de quem está dentro da universidade, não é só querer cobrar da UNE, não só esperar a UNE fazer. É papel meu fazer na minha universidade, então eu vou montar o CA, o DCE, vou tentar me inteirar dos problemas que estão acontecendo e levar essa discussão para a universidade. Só assim a gente vai conseguir. Esperar da UNE não é uma boa solução, cabe a quem está dentro da universidade fazer alguma coisa, seria o mais importante", finaliza Roberta.

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