Unesp pesquisa consumo de drogas lícitas e ilícitas no ensino médio
O psicólogo e professor do Departamento de Educação do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Unesp, campus de São José do Rio Preto, Raul Aragão Martins, juntamente com sua equipe, desenvolve pesquisas sobre o consumo de álcool e de outras drogas lícitas e ilícitas por alunos do ensino médio.
Os estudos de Martins, financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estão sendo desenvolvidos com discentes da rede pública de Educação dos municípios de São José do Rio Preto e Nova Granada, interior de São Paulo.
O trabalho realizado por Martins consiste na reeducação dos hábitos de jovens que bebem pesadamente, a fim de moderar o uso dessa substância ou conduzi-los voluntariamente à abstinência.
Para tanto, os jovens que apresentam esse comportamento são identificados e conduzidos para uma entrevista para confirmar e aprofundar o conhecimento sobre o seu padrão de beber. Posteriormente são submetidos à intervenção breve, procedimento psicológico fundamentado no diálogo não-conflitivo para a reflexão da conduta. Um discurso proibitivo e autoritário, provavelmente, levaria a efeitos contrários aos desejados, explica Martins.
Segundo o docente do Ibilce, a ingestão de álcool em demasia, base para o uso de outras drogas psico-ativas, incide diretamente no desenvolvimento cognitivo. Pesquisas realizadas em escolas particulares em nível médio de Rio Preto, por graduandos em Ciências Biológicas da Unesp, mostram que quanto maior o consumo de álcool, menor a nota e o desempenho acadêmico do aluno, diz.
O pesquisador investiga, também, o porquê dos adolescentes não considerarem os pais como autoridades na normatização dessas condutas, e como os jovens julgam o consumo de bebidas alcoólicas e entorpecentes. Os resultados dos estudos, iniciados em maio de 2004, deverão ser divulgados no final deste ano, data de término das pesquisas, mas Martins antecipa alguns fatores de risco para o uso excessivo de bebidas alcoólicas.
Entre os fatores de risco destacam-se os familiares, crenças sobre as bebidas alcoólicas e fatores religiosos. Adolescentes oriundos de famílias com hábito de consumo exagerado acham que esse é o padrão normal de beber. Já os que vêm de famílias em que os seus membros não bebem ficam sem um padrão quando estão com os colegas e podem seguir aquele que mais bebe no grupo.
Quanto às crenças, os adolescentes e muitos adultos, ao verem que uma dose relaxa e descontrai, o que realmente acontece, fazem uso exagerado da bebida, acreditando que, bebendo várias doses conseguirão melhorar o relacionamento intra e interpessoal. Entretanto, muitos desconhecem que o álcool em altas doses age como depressor do sistema nervoso central, além de ser altamente tóxico para o organismo. Existe ainda o fator religioso, pois adolescentes que se declaram sem religião, geralmente, bebem mais que os que afirmam ter uma fé.
Alguns fatores, entretanto, podem ser descartados. O primeiro fator de risco a ser descartado é o socioeconômico. O álcool é uma bebida democraticamente distribuída. O que varia no consumo das diversas classes sociais é o tipo de bebida alcoólica: as camadas mais pobres optam por destilados mais baratos e que embriagam mais rapidamente, comenta Martins.
Outro ponto salientado é o consumo de bebidas entre as mulheres, que vem aumentando. A maioria delas não sabe que apresenta metade da tolerância masculina ao álcool. Isso é devido ao fato de terem um conteúdo maior de tecido gorduroso que o homem e uma menor quantidade de enzimas que atuam no metabolismo do álcool. Como conseqüência, as mulheres se embriagam mais rapidamente e o álcool demora mais para ser metabolizado em seus organismos.
Não é possível impedir que as pessoas usem algum tipo de droga, mas é possível ensiná-las a fazê-lo de forma moderada e não nociva. Disciplinar não é apenas proibir, mas também ensinar os limites de determinadas ações: os pais precisam ensinar a seus filhos o que é uma dose, quanto de álcool pode ser ingerido, e os problemas relacionados com essa substância. Os jovens, de maneira geral, não sabem beber, e arriscam sua própria segurança ao ingerir álcool em doses excessivas, enfatiza Martins.
A pesquisa, pioneira tendo como objeto o ensino médio, foi motivada pelos resultados obtidos no projeto Viver Bem 2000, iniciado em 1997 nas unidades unespianas. O projeto constatou que, aproximadamente, 18% dos estudantes ingressantes na Universidade já faziam uso excessivo de bebidas alcoólicas, o que comprova que o problema é anterior à fase universitária dos adolescentes. Por isso Martins o está estudando no ensino médio, talvez, em seu primeiro estágio: Quero mostrar aos jovens que é possível viver bem de cara limpa, afirma.