21/09/2005

Unifesp prepara professores para falar de sexo para as crianças

Para evitar que perguntas inesperadas dos alunos deixem os professores de "saia justa", médicos e psicólogos explicam a educadores como abordar algumas das dúvidas mais freqüentes das crianças sobre sexualidade.

De onde viemos? O que é orgasmo? Para que serve a camisinha? Estas são algumas questões feitas por alunos da Escola Paulistinha de Educação (EPE) - que atende filhos de funcionários da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - e que poucos professores estavam preparados para responder. Para evitar estas situações embaraçosas, médicos e psicólogos da Unifesp estão oferecendo aulas sobre sexualidade infantil e auxiliando os educadores sobre a melhor forma de explicar alguns assuntos. Uma iniciativa que poderá ser estendida a outros estabelecimentos de ensino.

A equipe de sexualidade Projeto de Orientação e Pesquisa (POP) da Unifesp já realizou dois encontros com os professores da escola, que conversaram com a equipe formada por uma pediatra, uma ginecologista e uma psicóloga. No primeiro dia, são apresentadas informações sobre as especialidades e, no segundo, são abordadas as dúvidas mais freqüentes dos alunos, para que as especialistas possam orientar os professores.

Saber até que ponto a curiosidade da criança vai é um dos principais pontos a serem considerados, inclusive para definir o grau de aprofundamento da resposta. "Quando a criança pergunta o que é orgasmo, por exemplo, é necessário saber onde ela ouviu isso e o que ela sabe sobre o assunto, para dar uma explicação que não vá além do interesse dela", explica a psicóloga Mara Pusch.

Separar a malícia do adulto e a inocência da criança é outra importante questão. Para a ginecologista Carolina Carvalho, muitas vezes o adulto só fica constrangido porque "sexualiza" a pergunta. "Geralmente, a criança questiona um fato ligado à sexualidade como outro qualquer e, se o adulto demonstrar insegurança, vai despertar ainda mais a curiosidade da criança".

As professoras relatam também que alguns assuntos "do momento" são comentados em sala de aula pelos alunos. Um exemplo pôde ser sentido recentemente, quando a introdução do tema pedofilia na trama da novela América, da Rede Globo, chamou a atenção dos alunos e exigiu explicações sobre uma questão tão delicada.

Aproveitar a curiosidade

Segundo a pediatra Flávia Calanca, esse tipo de questionamento é normal e auxilia a que pais e professores já se preparem para enfrentar outras perguntas, igualmente complexas. Outra ressalva da pediatra é em relação à necessidade de, às vezes, ter de interromper a aula para discutir um assunto que esteja causando alvoroço. "Quando a sala toda está interessada em um mesmo assunto, vai ser difícil retomar a aula. É melhor aproveitar essa curiosidade e tratar o tema, porque em outro momento as crianças talvez já não estejam interessadas".

Uma preocupação constante dos professores é com a aceitação pelos pais da abordagem de temas ligados à sexualidade. Ainda existem casais que não gostam que conversem com seus filhos sobre esses assuntos. Para a psicóloga Mara, é preciso informar os pais sobre o que se passa na sala. "Se algum tema surgir de repente na aula e a professora julgar necessário abordá-lo, é importante mandar informativo aos pais, porque provavelmente as crianças irão comentar em casa".

Além disso, ressalta que é essencial que cada escola defina previamente qual postura será tomada nessas ocasiões. "Sexualidade é um assunto que já faz parte do currículo mínimo das escolas públicas. Então, os pais já devem estar avisados sobre a conduta pedagógica em relação a estes temas", defende a psicóloga.

Para a diretora da Escola Paulistinha, Lea Albertoni, esse tipo de parceria é muito importante porque acrescenta na formação do professor. Segundo ela, estes temas não são abordados nos cursos de pedagogia, mas os professores são constantemente cobrados pelos alunos. "A escola tem que ser um pólo esclarecedor e facilitador do desenvolvimento da criança. Cada vez mais os alunos têm acesso pela mídia a temas ligados à sexualidade e cabe ao professor saber abordá-los, para colaborar com sua formação".

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