Universidade sem ex-alunos
Os certificados de graduação das universidades deveriam ter um prazo de validade e os profissionais deveriam renová-los a cada cinco anos, voltando à escola. Isto aboliria o conceito de ex-aluno em um mundo onde o conhecimento cresce vertiginosamente. Trata-se de uma das idéias que o ministro da Educação, Cristovam Buarque, colocará em discussão no Seminário Internacional Universidade XXI, que reúne esta semana, em Brasília, especialistas nacionais e estrangeiros para debater o futuro do ensino superior.
O conhecimento em todo o mundo "avança mais rapidamente fora da universidade do que dentro dela", disse o ministro à IPS, qualificando o fenômeno de "crise epistemológica" da academia. A cada momento surgem novos aspectos, novas áreas de pensamento e conhecimento que não têm lugar no ensino, porque as universidades demoram muito em acolhê-las, e o mesmo acontece com as novas profissões que estão se multiplicando, observou Buarque. A maneira como se gradua uma pessoa hoje segue o mesmo caminho de muitas décadas atrás, enquanto o mundo mudou totalmente, disse o ministro.
Um profissional podia manter-se em atividade por 30 anos com os mesmos conhecimentos adquiridos em um curso superior, e era considerado capaz e "com boa formação". Agora, "a cada cinco anos tudo muda e a universidade não sabe o que fazer com seus ex-alunos", afirma Buarque. A partir desse diagnóstico, Cristovam Buarque sugere "mudanças estruturais" nas escolas superiores e universidades, reorganizando-as não só em departamentos, como também por "temas do mundo real ou núcleos temáticos".
Nem todos os problemas se relacionam com a produção de conhecimentos. Alguns têm a ver com a impossibilidade social de se chegar à universidade. Em muitos países, o acesso à educação universitária ou terciária continua sendo baixo. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, 45 em cada cem jovens ingressam na educação terciária e em muitos países africanos essa proporção não chega aos dois dígitos, segundo dados do Banco Mundial até 1999. Cristovam Buarque identifica também uma "crise ética" nas universidades atuais, além de insuficientes "compromissos sociais". O compromisso universitário concentra-se "na parte rica da sociedade", contribuindo decisivamente com a "construção de um mundo dividido".
A questão ambiental é outro exemplo. A universidade a rejeitou o quanto pôde e, quando a incorporou, criou um novo curso em lugar de incluí-la em todos os cursos, gerando contradições e conflitos. "Os engenheiros são os que deveriam estudar o tema, não os biólogos", afirmou. Tal como ficaram as coisas, tampouco os biólogos fazem da ecologia "uma prática ética", vendo o ambiente como simples objeto de estudo. (IPS/Envolverde).